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A INICIAÇÃO EM YOGA E TANTRA

SHIVARATRI, UM CONTO ENCANTADOR QUE INICIA O PRATICANTE EM PURNA YOGA


(A YOGA COMPLETA E TANTRA).
Siva Suami Hamsananda Sarasvati

SHIVARATRI, A CONSUMAÇÃO DA UNIÃO ETERNA DE SHIVA E SHAKTI.

A palavra YOGA do sânscrito “YOG”, do radical “YUDJ”, significa união. Aqui temos a significativa história da união
eterna de Shiva (consciência, masculino, espírito, guru) com Shakti (energia, feminino, matéria, discípulo, mente/corpo), a
complementação das forças opostas do universo. O dia de Shivaratri é comemorado em toda a Índia nos templos de Shiva e
nos principais centros de yoga no décimo quarto dia após a Lua cheia, no início de Fevereiro ou final de Janeiro. É um dia
muito especial, em que dentre as comemorações extremamente favorecedoras, se narra esta história para atrair os ótimos
fluídos em nossas vidas e se ter sucesso com as práticas de yoga. Foi com o advento da união matrimonial de Shiva com
Shakti que surgiram os ensinamentos de yoga e foram revelados de Shiva para sua esposa a pedido dela, em benefício dos
seres humanos e dos animais. O conto de profundo e abrangente simbolismo, segue assim.

Na antiga e longínqua Índia, berço da sabedoria infinita, em tempos muitos remotos, desde que Parvati (que significa Filha
das Montanhas), encarnação de Sati, eterna consorte de Shiva, nasceu na casa do rei Himachala (divindade do Himalaia),
como sua filha, as montanhas se converteram em uma morada de bênçãos e prosperidade. Os sábios ergueram belas ermidas
por toda parte e o Himalaia proporcionou a todos bons refúgios (na forma de cavernas, etc.).

Jovens árvores de variedades distintas foram dotadas de botões e frutos que nunca terminavam e nas belas montanhas
apareceram minas e depósitos naturais de diversas classes de pedras preciosas e talismãs.

Todos os rios levavam águas santas e purificadoras; todos se regozijavam: pássaros, animais selvagens, abelhas. Todos os
animais esqueciam suas inimizades naturais e viviam em um clima de paz e cordialidade mutua. Com a chegada de Guiridja
(sinônimo de Parvati) as montanhas pareciam especialmente belas, tal qual a face de um yogui iluminado. Cada dia era um
novo prazer na casa de Himachala, cuja glória era cantada e prestigiada até mesmo pelas grandes divindades como Brahma
(o criador). Ouvindo falar disto o sábio Narada quis ir à casa de Himachala (se pronuncia Rimatchal). O rei das montanhas e
divindade tutelar do Himalaia, lhe recebeu com muita reverência; após lavar os pés do sábio, lhe conduziu a um belo
assento. Inclinou sua cabeça aos pés de Narada, tal como sua esposa e borrifou toda sua morada com água santificada por
seus pés. Himachala falou do quão afortunado era e chamando sua filha, a colocou aos pés do santo homem.

“Tu sabes tudo, presente, passado e futuro. Penetras em tudo. Portanto, oh bom sábio, considera e diz-me o que há de bom
e o que há de mal em minha filha”

O sábio, sorrindo, respondeu com estas palavras doces e reveladoras: “Tua filha é uma mina de virtudes; é bela, amável e
inteligente por natureza. Será chamada“UMA”, “AMBIKA” (mãe) e “BHAVANI” (deusa). Adornada com todas as boas
qualidades, a mocinha ganhará o amor sem defeitos de seu esposo. Permanecerá unida a seu senhor para sempre e trará
glórias a seus pais. Merecerá o respeito de todo o universo; aquele que pedir a ela, obterá tudo! Só pensando em seu nome,
as mulheres deste mundo poderão permanecer fiéis a seus senhores, o que é difícil como andar no fio de uma navalha. Tua
filha, oh Himachala, foi dotada de sinais favoráveis. Escuta agora os poucos defeitos que possui. Desprovida de méritos,
livre de orgulho, sem pai nem mãe, despreocupada e livre de dúvidas...

Um asceta de cabelo emaranhado e coração livre de todo anseio, completamente nu e com estranhos adereços, tal será seu
senhor, pois eu posso ler na palma de sua mão”.

Ao ouvir as palavras do sábio e tomando-las como certas Himachala e sua esposa ficaram muito desconsolados, enquanto
que Uma estava muito contente. Nem sequer Narada podia perceber esta diferença entre eles. Embora sua expressão exterior
fosse igual, seu sentimento era diferente. Guiridja e todos seus companheiros de folguedos, Himachala e sua esposa, todos
tinham os pelos eriçados e os olhos cheios de lágrimas. As palavras do sábio celestial Narada haveriam de ser certas! Uma
as recordava em seu coração com alegria. O amor pelos pés de lótus de Shiva brotou em seu coração. No entanto, carecia de
confiança em si mesma, pois a união com Siva (se pronuncia Shiva) lhe parecia muito difícil. Compreendendo que o
momento não era apropriado para revelações,escondeu suas emoções e se sentou ao lado de um de seus companheiros. A
predição do sábio não poderia ser falsa! Este pensamento preocupava Himavan (sinônimo de Himachal, pronuncia-se
Rimavam) e sua esposa, assim como aos amigos de Uma. Acalmando-se o senhor das montanhas disse: “Diz-me, santo
senhor, que solução deveríamos aplicar?”

O chefe dos sábios, Narada, respondeu-lhe: “Escuta, oh Himavan; ninguém pode mudar o que o destino preparou, nem
deuses, demônios, seres humanos, Nagas ou sábios. Entretanto, te darei uma solução: pode ser que te sirva se o céu te
ajudar. Sem dúvida Uma terá o esposo que te descrevi. Mas, de acordo aos meus conhecimentos, os defeitos do esposo de
Uma estão presentes em Siva. Se ela se casar com Shamkara (um dos nomes de Siva, significa: “Bondade Personificada”),
todos considerarão os defeitos tão bons como as virtudes. Ainda que o Sri Hari (Vishnu, a divindade da manutenção e da
continuidade) utilize o deus-serpente como leito e durma sobre ele, os sábios não o culpam por isto. Ainda que o Sol e o
fogo, absorvam toda a umidade em todos os objetos, esta não lhe umidece. Todo tipo de água pura e impura flui no Ganges,
mas o santo rio não é considerado impuro. Tal qual o Sol, o fogo e o Ganges, o sábio não conhece a culpa. Sentindo-se
orgulhosos de sua sabedoria, os homens imitam os grandes sábios e com esta ofensa são lançados ao fogo do inferno
durante todo um KALPA, período de duração da vida no universo. Pode uma alma encarnada lutar contra Deus?”

“Os homens santos não devem beber vinho, ainda que lhes seja dito que foi feito com água do Ganges; mas este mesmo
vinho se torna puro quando se verte no Ganges. A diferença entre a alma individual e Deus deve explicar-se também assim.
Shambho (Shiva), é todo poderoso por natureza, pois é o próprio Deus. Portanto o matrimônio com Ele será de todo
favorável. O grande senhor Siva é verdadeiramente difícil de agradar, mas fica satisfeito em seguida quando se faz
penitência. Se sua filha pratica austeridades, o matador do demônio Tripura, Siva, pode inclusive apagar as linhas do
destino. E, embora haja muitos no mundo que pretendam a mão de sua filha, ela não pode ter outro companheiro exceto
Siva! Ele é o doador de todos os pedidos, dissipador do sofrimento de quem suplica, oceano de bondade e alegria dos
yoguis. Sem agradar a Siva não se pode satisfazer os desejos nem com milhões de práticas yoguis e JAPAS (repetição de
mantras, ou fórmulas mágicas e sagradas)”.

Dizendo isto e com a mente fixa em Sri Hari, sua divindade tutelar, Narada deu suas bênçãos a Guiridja e disse: “Esqueça
todo o temor, oh senhor das montanhas; tudo sairá bem”.

Depois de falar assim, o sábio regressou à morada de Brahma (o criador). Agora escuta como foi o final da história. Ao
encontrar seu esposo só, Mena (esposa de Himavan) lhe disse: “Meu senhor, eu não pude compreender as palavras do sábio.
Se o companheiro de nossa filha, sua casa e sua linhagem são incomparáveis e dignos de Uma, deve se realizar logo o
matrimônio. Do contrário, é melhor que a mocinha continue solteira, já que Uma é tão querida por mim como minha própria
vida. Se não conseguimos um esposo digno de Guiridja, todos dirão que Himachala é torpe por natureza. Recorda isto meu
senhor, quando fores estabelecer a aliança para que não possa haver causa de arrependimento”. Depois destas palavras,
Mena se prostrou com a cabeça aos pés de seu senhor. Ele, Himalaia (outro nome de Himavan), senhor das montanhas
replicou com voz carinhosa: “Antes sairão chamas de fogo da Lua se a profecia de Narada for falsa”.

“Esqueça toda preocupação querida, e fixa tua mente no Senhor. Só Ele que criou Parvati lhe dará a felicidade. Se tens amor
por sua filha, vá e aconselhe-a a praticar austeridades para que produza sua união com Siva; não há outra forma de superar
a tristeza. As palavras de Narada são sábias e cheias de razão. Siva (que carrega um touro como emblema) é fonte de
belezas e virtudes; sabendo disto não abrigues nenhum temor. Shamkara (Siva) é irresistível em todos os aspectos”.

Depois de ouvir as palavras de seu esposo, Mena se sentiu contente; num instante se ergueu e foi onde estava Guiridja. Ao
ver Uma, lágrimas brotaram de seus olhos e com carinho colheu a menina em seu regaço. Por vezes lhe abraçara, sua voz
estava tomada pela emoção e sua língua estava paralisada. A mãe do universo, a onisciente Bhavani, falou então estas doces
palavras que alegraram o coração de sua mãe.

“Escuta mãe, vou contar-te uma visão que tive. Um brahman belo e de charmosa figura me deu o seguinte conselho:
Reconhecendo as palavras de Narada vá e pratica austeridade, oh donzela das montanhas, a idéia é também do agrado de
teus pais. A austeridade (a prática de yoga é tida como tal) conduz a alegria e põe fim as tristezas e aos males. Pela virtude
da penitência Brahma criou o universo. Graças à penitência Vishnu protege o mundo inteiro. Graças a penitência Shambho
(Siva) se encarrega de transformá-lo. Também graças a penitência Shisha (o deus serpente) leva o peso da terra sobre sua
cabeça. Na verdade a criação inteira se sustenta com a penitência, Bhavani. Tenha isto presente e pratica a austeridade”. Ao
ouvir isto, a mãe ficou maravilhada, chamou Himalaia e lhe comunicou a visão. Após consolar seus pais, Uma saiu para
fazer penitência cheia de prazer. Toda sua família chorava de pena e ninguém dizia nada.

Então veio o sábio Vedasira e consolou a todos. Sentiam-se aliviados ao ouvir falar das glórias de Parvati.

Amando em seu coração os pés de seu senhor, Uma foi ao bosque e começou sua penitência. Sua delicada constituição não
era muito apropriada para fazer austeridades, mas ela renunciou a todos os luxos fixando a mente nos pés de seu senhor. Sua
devoção aos pés de Siva aumentava a cada dia e ficou tão absorta na penitência que perdeu toda consciência de seu corpo.
Durante mil anos viveu só de raízes e frutos. Nos cem anos seguintes sobreviveu apenas com vegetais. Logo, por uns dias
seus únicos alimentos foram à água e o ar e depois jejuou alguns dias mais. Durante três mil anos se alimentou de folhas
secas que caiam da árvore Bel (consagrada a Siva). Finalmente deixou inclusive de comer estas folhas. Então adotou o
nome de APARNA (que vive até sem folhas). Vendo seu corpo mortificado de tanto sacrifício, a voz profunda de Brahma (o
criador) ressoou no céu: “Escuta, filha do rei da montanha; teu desejo será cumprido. Abandona tuas penitências; aquele que
destruiu Tripura será logo teu. Já houveram muitos sábios, controlados e iluminados, mas nenhum deles realizou tais
penitências, Bhavani. Agora desfruta destas palavras supremas do céu e saiba que são verdadeiras e sagradas para sempre.
Quando teu pai chegar a ti não resista e volte para casa em seguida. E quando vires os sete sábios (constelação Ursa Maior),
confia na veracidade deste oráculo”. Guiridja se regozijou ao ouvir estas palavras de Brahman que o céu havia derramado e
sentiu um estremecimento de alegria por todo seu corpo.

O sábio Yajnavalkya (pronuncia-se Yaguiniavalkya) que estava narrando este conto ao rei Bharadwaja disse: “Te contei a
bela história de Uma; agora escuta o maravilhoso relato da história de Shambho (Siva). Desde que Sati abandonou seu
corpo, a mente de Siva afastou-se de tudo e submergiu em profunda meditação. A encarnação da inteligência e da sorte, a
fonte da felicidade, Siva, que está livre do erro, da arrogância e do desejo, vagava pela terra com o coração fixo em sua
essência sublime. Ensinava a sabedoria aos sábios. Ainda que livre de paixão e onisciente, o Senhor estava aflito pela
separação de sua devota, a amada Sati. Assim passou muito tempo. Sri Rama (uma das formas de Vishnu), que é um em
essência com Siva, apareceu perante Shamkara (Siva) e lhe falou de muitas formas – Quem senão tu podes cumprir tal
promessa?” Yaguiniavalkya prosseguiu: Sri Rama lhe deu muitos conselhos e lhe falou de Sati reencarnada como Parvati.
Sri Rama em sua infinita compaixão lhe contou detalhadamente as ações yoguis de Guirija e seu fervoroso propósito.

“Agora Siva, se tens amor por mim, escuta meu pedido. Vá e casa-te com Sailaja (filha de Himalaia); concede-me este
pedido.” Siva respondeu: “Ainda que não se compreenda, as palavras de um mestre não se pode rechaçar. Tua ordem deve
ser levada a cabo com toda obediência; é meu dever primordial. As palavras dos pais, mestres, professores devem ser
obedecidas sem tardança, pois levam à felicidade. Tu és meu supremo benfeitor, por isso meu Senhor, me prostro a teus
mandos”. O Senhor Rama, que muito ama Siva, ficou satisfeito ao escutar as justas palavras de Shamkara, inspiradas pela
sabedoria e piedade. Sri Rama disse: “Fizeste sua promessa, agora recorda o que te disse” Dizendo isto, desapareceu. Neste
exato momento os Sete Sábios (Sapta Rishis), vieram ver Siva. O Senhor Siva lhes falou com belíssimas palavras. “Ide até
Parvati e ponha a prova seu amor. Depois levem seu pai Himalaia até ela, mandem-na de volta para sua casa e dissipem suas
dúvidas.”

Então os sábios vieram até Gouri (Parvati, significa a de corpo belo) como se esta fosse a penitência em pessoa e lhe
disseram: “Escuta, filha de Himachala, por que praticas uma penitência tão árdua? A quem adoras e o que buscas? Porque
não nos revela teu segredo?”

Em resposta: “Me sinto muito fraca para cumprir minha missão. Vós rireis ao escutar minhas loucuras. Minha mente adotou
uma postura rígida e não presta atenção aos conselhos; poderia inclusive levantar um muro d’água. Confiando na verdade da
profecia de Narada anseio voar mesmo sem ter asas. Fixa em minha loucura, sempre anseio em ter Siva como esposo.”

Ao ouvir esta resposta os sábios riram e disseram: “Ainda por cima teu corpo deve tua existência a uma montanha
(Himalaia); diz-nos quem escutou as palavras de Narada e que viva ainda em sua casa? Narada chamou e repreendeu os
filhos de Daksha e estes não voltaram a ver suas casas. Destruiu a casa de Chitraketu e logo Hiranyakasipu sofreu o mesmo
destino. Os homens e mulheres que escutam as palavras de Narada deixam sempre seus lugares e se tornam mendigos. De
coração astuto, tem os atributos de um homem piedoso e gostaria que todos fossem como ele. Confiando em suas palavras
tu desejas um esposo apático por natureza, desprovido de atributos, sem vergonha nem casa, desnudo, de aspecto pouco
agradável, com uma guirlanda de caveiras no pescoço, ademais não tem família e se adorna com serpentes. Diz-nos que
felicidade esperas ao conseguir um marido assim? Fostes uma presa fácil para os planos deste impostor!”

“Siva se casou com Sati por intervenção de alguns amigos, mas logo Ele a abandonou e deixou que morresse. Agora Siva
vive despreocupado, pede esmolas e desfruta de bom sono. Podem as mulheres, permanecer sempre reclusas em uma casa?
Aceita nosso conselho. Temos pensado em um companheiro excelente para ti, excepcionalmente belo, piedoso, agradável e
bondoso, cujas glórias e façanhas contam os Vedas. Ele é livre de toda mácula, é uma mina de todas as virtudes e senhor de
Lakshimi (deusa da prosperidade) e tem sua morada em Vaikuntha (morada celestial de Vishnu). Faremos tudo para que
possa te unir a Ele.”

Ao ouvir isto; Bhavani riu e disse: “Vós haveis dado conta de que meu corpo é feito de pedra. Preferia morrer antes de
abandonar meu propósito. O ouro é um produto da pedra que não perde sua qualidade apesar de ser lançado no fogo. Eu não
posso esquecer-me das palavras de Narada, a mim não me importa se minha casa esteja cheia ou vazia. Aquele que não tem
fé nas palavras de seu mestre não pode alcançar a felicidade, êxito, nem sequer em sonhos.”

E continuou: “Pode ser que o grande deus Siva esteja cheio de faltas e Vishnu seja fonte de virtudes. No entanto, vós só
desejais o que alegra vosso coração. Se tivessem me falado antes, oh grandes sábios, haveria escutado vosso conselho com
respeito, mas agora que consagrei minha vida a Shambho, quem vai pesar seus méritos e faltas?”

“Se estais empenhados em unir um casal e não podeis evitá-lo, não faltam pretendentes e donzelas que podeis unir, os que
encontram satisfação nessas atividades não conhecem aborrecimento. Mas eu devo casar-me com Shambho ou continuar
virgem, não importa se tenho que continuar tentando por mais dez milhões de vidas. Não me esquecerei dos conselhos de
Narada ainda que o próprio Shambho me diga cem vezes que o faça . Me prostro aos vossos pés. Por favor voltem para
vossa casa, já é tarde .“ Ao ver a glória e devoção de Parvati, os grandes sábios exclamaram: “Glória a ti oh Bhavani, mãe
do universo! Tu és Maya enquanto Siva é o próprio Deus. Vos sois os pais do universo inteiro.” Prostrando a cabeça aos pés
de Parvati, partiram. Por seus corpos corria um estremecimento de emoção que lhes invadia uma e outra vez.

Os sábios se foram e enviaram Himavan até Guiridja, que após muitas súplicas conseguiu leva-la de volta para casa. Então
os sábios foram até Siva e lhe contaram toda a maravilhosa história de Uma. Siva ficou encantado ao ouvir falar de seu
amor e os Saptarishis (os Sete Sábios) regressaram para suas casa cheios de alegria.

Logo Shambho, concentrou sua mente e começou a meditar. Naqueles dias havia aparecido um demônio chamado Taraka;
sua força, glória e majestade eram verdadeiramente grandes. Havia conquistado todas as dimensões e planos bem como seus
guardiões e todos os deuses se achavam destituídos de felicidade e prosperidade. Taraka não conhecia a idade nem a morte e
era invencível. Os deuses haviam lutado contra ele muitas vezes e sempre perdiam. Então foram até Virantchi (Brahma) e
lhe falaram de seus males. O criador os encontrou em um estado muito miserável. E lhes consolou dizendo: “O demônio só
será destruído quando nasça um filho do lombo de Shambho, pois só ele poderá vencer Taraka. Atuem de acordo com o que
vos digo. Obterão ajuda divina e vossos planos terão êxito. Sati que deixou seu corpo no YAGUIA (fogo sacrificial)
realizado pelo rei Daksha, voltou a nascer na casa de Himachala. Ela fez penitência para se casar com Shambho; e Siva que
renunciou a tudo está absorvido em profunda meditação. Ainda que não pareça adequada escutem minha proposta. Ide até
KAMADEVA (o cupido da mitologia hindu) e enviem-no até Siva; deixem que rompa a serenidade de sua mente. Logo
iremos e prostrando-nos aos pés de Siva o convenceremos para que se case ainda que seja contra sua vontade. Só assim
serão atendidos os pedidos dos deuses.”

Todos ali presentes responderam: ”A idéia é excelente”. Então os deuses rezaram com grande fervor e o deus do amor,
armado com cinco flechas (o lótus branco, a flor Asoka, o botão da mangueira, o jasmim, o lótus azul) e com um peixe
como emblema em seu estandarte, apareceu perante eles.

Os deuses lhe contaram seus sofrimentos, ao ouvir seu relato, o deus do amor ficou pensativo, sorridente e falou deste
modo: “Se vou contra Shambho, não receberei nenhum bem. No entanto farei o que me pedis, pois os Vedas dizem que a
bondade é a maior das virtudes. Os santos sempre exaltam a quem entrega a vida ao serviço dos demais.” Dizendo isto, o
deus do amor se prostrou perante eles e partiu com seus amigos e com o ramo de flores (flechas) na mão. Quando se ia, o
Amor pensou que a inimizade com Siva significava a morte certa. Então lançou seu poder e o mundo inteiro se pôs a seu
serviço. Quando Kama (o cupido) mostrou sua ira, todas as barreiras impostas pelos Vedas (livros de sabedoria)
desmoronaram no mesmo instante. Todo o exército de Viveka (discernimento), castidade, votos de celibato, todo tipo de
autodomínio, força, piedade, sabedoria espiritual e conhecimento da divindade qualificada com forma ou sem ela, a moral,
as orações e o desapego ficaram desmoronados.

Viveka (discernimento) iniciou um vôo com seus aliados, seus grandes guerreiros se retiraram do campo de batalha. Se
foram todos e se esconderam nas cavernas das montanhas, que eram os livros sagrados daquele tempo. Houve uma grande
revolução no mundo e todos disseram: “Deus meu, que irá suceder? Que poder nos salvará? Quem é este sobre-humano com
duas cabeças, que para vence-lo o senhor de Rati, o Amor, levantou com fúria seu arco e flechas?”

Todas as mentes se encherem de luxúria, os ramos das árvores de dobraram ao ver as trepadeiras. Os rios, como torrentes se
precipitaram a unir-se com o oceano; os lagos e tanques se uniram com mútuo amor. Se tais coisas se sucederam na criação
inanimada, quem poderia dizer as ações dos seres sensíveis. As bestas que caminhavam sobre a terra, os pássaros que
sulcam o ar e a água perderam todo sentido do tempo e foram vítimas da luxúria. O mundo inteiro entrou em um estado de
agitação e ficou ofuscado pela paixão. Os deuses, demônios, seres humanos, kinaras (semideuses), serpentes, espíritos do
mal, fantasmas e vampiros, até os siddhas (adeptos espirituais de grande realização), os sábios que não sentem atração pelo
mundo e os que praticam penitências e austeridades esqueceram-se de suas práticas sob a influência da luxúria. E se tais
pessoas estavam possuídos pela luxúria, quem dirá o povo comum! Aqueles que sempre haviam olhado a criação animada e
inanimada como cheia e impregnada de uma única essência indestrutível e eterna, agora a viam constituída apenas de puro
sexo. As mulheres viam o mundo cheio de homens, enquanto que para estes estava cheio de mulheres. E este maravilhoso
jogo do Amor durou no universo quase uma hora.

Ninguém podia manter-se controlado, todos os corações haviam sido roubados pelo deus do amor. O feitiço durou quase
que uma hora até que Kama encontrou Shambho. O cupido tremeu ao ver Siva e o mundo inteiro voltou a calma.
Imediatamente todos os seres vivos recobraram sua paz mental tal qual o homem ébrio sente alívio quando passa o efeito do
álcool. Ao ver Bhagavan Rudra (Siva) o deus do amor se encheu de terror, pois Siva é difícil de vencer e compreender.
Sentiu-se tímido e incapaz de fazer qualquer coisa. Finalmente se decidiu pela morte e preparou um plano. Então fez com
que aparecesse a bela primavera, rainha de todas as estações; apareceram fileiras de árvores carregadas de flores. Os
bosques e alamedas, os vales e lagos e todo o céu adquiriram uma aparência belíssima. Por toda a parte parecia que a
natureza transbordava de amor e a vista de tanta beleza a paixão se acendia até nas almas dos mortos. Uma brisa fresca,
suave e fragrante aliviava o fogo da paixão como se fosse sua fiel companheira. Fileiras de lótus floresciam nos lagos e
enxames de abelhas zumbiam sobre eles. Os cisnes e papagaios emitiam doces sons e donzelas celestiais cantavam e
bailavam.
O deus do amor, com seu exército de seguidores havia esgotado seus inúmeros estratagemas, no entanto o êxtase de Siva
não se quebrava. Isto enfureceu Kama. Vendo uma bela ramagem numa mangueira, o deus do amor subiu nela com cara de
frustração. Juntou suas cinco flechas e com o olhar cheio de ira esticou o arco até as orelhas. Disparou as cinco flechas e
estas feriram o peito de Siva. O êxtase se rompeu e Shambho despertou..

A mente do Senhor estava muito perturbada. Abrindo os olhos, mirou os arredores. Quando viu Kama escondido atrás das
folhas da mangueira, ficou muito furioso e isto fez tremer as três esferas (a animal, a humana e a divina). Então Siva abriu o
seu terceiro olho e fitou Kama que ficou reduzido a cinzas. Um grande lamento se estendeu por todo universo. Os deuses
estavam alarmados e os demônios satisfeitos. Pensar nas perdas dos prazeres sensuais entristecia aos voluptuosos, enquanto
que muitos se sentiam livres de um espinho. Os que viviam em meditação ficaram livres de tormentos, enquanto que Rati
(esposa de Kama) desmaiou ao interar-se da sorte de seu senhor. Aproximou-se de Shamkara chorando, lamentando-se e
suplicando de muitas formas ficou parada perante Siva com as mãos juntas. Ao ver a desvalida mulher, o bondoso Senhor
Siva, a quem é fácil de aplacar, profetizou deste modo: “De agora em diante Rati, teu esposo será chamado Ananga
(incorpóreo); terá poderes mesmo carecendo de corpo. Escuta agora como voltarás a estar com ele. Quando Sri Krishna
descender na linhagem de Yadu para aliviar a Terra do sofrimento, teu senhor nascerá de novo como Seu filho
(Pradyumna); esta predição não pode deixar de se cumprir.”

Depois de escutar as palavras de Shamkara, Rati se foi. Agora contarei o resto da história. Quando Brahma (o criador) e os
outros deuses se interaram do sucedido, foram até Vaikuntha (morada de Vishnu). Dela todos os deuses, incluindo Vishnu e
Viranchi (Brahma) foram até o misericordioso Siva. Falaram severamente e agradaram o Senhor cujo estandarte está
adornado com a meia Lua. Então Siva, oceano de compaixão disse: “Digam-me, imortais, que desejais?” E Brahma
replicou: “Senhor, Tu és quem controla tudo; ainda assim mestre, minha devoção a Ti me empurra a fazer-te esta súplica:
Os corações de todos os mortais estão dominados por um desejo muito forte. Eles anseiam poderem ser testemunhas de Teu
casamento com seus próprios olhos, meu Senhor. Oh humilde Senhor do Amor! Faze que de alguma forma nossos olhos
possam se regozijar com este feliz sucesso. Tendo queimado o deus do amor, fizestes bem em conceder um favor a Rati, oh
oceano de compaixão. Depois de aplicar o castigo, os bons mestres costumam derramar sua graça como conseqüência
natural. Parvati praticou penitência até um ponto difícil de avaliar, aceita-la agora com carinho.” Ao ouvir a súplica de
Brahma e recordando as palavras de Sri Rama, Siva respondeu com alegria: “EVA MASTU, (que assim seja)!” Então os
deuses fizeram ressonar seus instrumentos e fazendo cair uma chuva de flores exclamaram: ”Vitória, vitória ao Senhor dos
céus!”Crendo que o momento era oportuno os Sete Sábios (Sapta Rishis) fizeram sua aparição e imediatamente Brahma os
enviou a casa de Himavan. Em primeiro lugar foram ver Bhavani e se dirigiram a ela com estas palavras ao mesmo tempo
doces e enganosas.

“Por fiar-te nos conselhos de Narada, não prestastes atenção a nossas advertências. Tua promessa foi destruída, pois o
grande Senhor Siva queimou o deus do amor.” Ao ouvir isto, Bhavani sorriu e disse: “Oh grandes e iluminados sábios,
falastes bem. Segundo vós, agora Shamkara queimou o deus do amor, mas até sofria por causa do amor. No entanto, eu sei
que Siva está eternamente em contato com o infinito, não foi criado, é irrepreensível, livre de toda paixão e alegria humana.
Sabendo que assim o é, se eu lhe tenho servido com amor em pensamento, palavra e obra, escutem-me , grandes sábios: O
Senhor misericordioso fará com que se cumpra minha promessa. Vossa afirmação de que Hara (Siva) queimou o deus do
amor dá mostras de uma lamentável falta de pensamento em vós. O fogo, amigos, possui a propriedade inerente de que o
orvalho não se pode aproximar, se o faz perece irremediavelmente. Igualmente ocorre com o deus do amor e o grande Siva.”

Ao escutar a Bhavani e ver sua devoção e sua fé, os sábios se alegraram. Inclinaram suas cabeças perante ela e foram até
Himavan. Contaram-lhe o ocorrido e ele se sentiu muito triste ao saber que Siva tinha queimado o deus do amor. Logo os
sábios lhe disseram do favor concedido a Rati e deste modo Himavan se sentiu mais consolado. Recordando a glória de
Shambho, Himachala citou grandes sábios. Fixou uma data favorável segundo as posições das estrelas e uma hora bem
determinada. Depois de decidir o momento exato do casamento anotou todos estes dados segundo os preceitos védicos.
Himachala entregou as anotações com a hora exata do casamento aos Sete Sábios e unindo os pés, lhe apresentou suas
súplicas. Chamando Brahma lhe deram as anotações e quando as leu, seu coração estava transbordando de felicidade.
Brahma leu as anotações para todos os deuses e sábios que se alegraram ao escutá-las. Caiam flores do ar, a música saia de
diversos instrumentos e se colocaram jarros propícios em toda parte.

Os deuses começaram a enfeitar seus carros aéreos, se viam sinais de felicidade e bons presságios, donzelas celestiais
cantavam cheias de júbilo. Os servos de Shambho começaram a enfeitar seu Senhor. Seus cabelos formavam uma coroa e
foram adornados com uma crista de serpentes. Como pingentes e braceletes tinha também serpentes; seu corpo foi coberto
de cinzas e sobre as costas levava a pele de um leão. Em sua bela fronte brilhava a meia Lua, o rio Ganges na coroa de sua
cabeça e o cordão sagrado estava formado por três olhos e uma serpente. Sua garganta estava negra com a marca do veneno
que fora tragado no início da criação e levava uma guirlanda de crânios humanos em volta do pescoço. Embora vestido com
seus misteriosos atavios, seguia sendo uma fonte de bênçãos e de profunda misericórdia. Um tridente e um damaru
(pequeno tambor) adornavam suas mãos. Siva cavalgava um touro enquanto tocavam os instrumentos. As divindades
femininas sorriam e diziam: “Não há no mundo todo uma noiva digna deste noivo.” Vishnu, Brahma e outros deuses se
uniram ao cortejo do noivo em seus respectivos carros. Os imortais apresentavam um aspecto impecável e ainda assim,
quase não eram dignos de estar na presença de Siva.

Vishnu chamou os guardas dos diferentes exércitos e sorrindo lhes falou: “Cada um com seu próprio séqüito deve marchar
separadamente. A procissão não é digna do noivo. É como se estivessem passando por ridículo em uma cidade
desconhecida.” Ao ouvir as palavras de Vishnu, os deuses sorriram e partiram cada um com seu grupo. O grande senhor
Siva sorriu ao ver que o humor de Sri Rama (Vishnu) nunca falhava. Enquanto ouvia estes belos comentários de seu amigo,
enviou Bhrnji para que chamasse seus servos. Ao chamado de Siva vieram todos e prostraram a cabeça aos seus pés de
lótus. Siva riu ao ver seu exército vestido com roupas multicoloridas e avançando em toda classe de veículos. Alguns não
tinham cabeça, enquanto que outros eram monstros de muitas cabeças, alguns não tinham pés nem mãos . Outros tinham
numerosos olhos e outros não tinham nenhum. Alguns eram fortes e bem formados enquanto que outros eram magérrimos.
Alguns tinham corpos muito fracos e outros entretanto eram robustos; uns eram limpos e asseados enquanto outros eram
sujos e mal trajados. Iam adornados de forma temível com caveiras nas mãos e besuntados com sangue fresco. Tinham
cabeças de burros, cachorros, cervos, chacais, havia seres com olhos na barriga que andavam saltitando e a diversidade de
seus adereços era incontável. Os grupos de espíritos, duendes e fadas não se podia descrever.

Os espíritos bailavam e cantavam, tinham um aspecto fantástico, absurdo e falavam de uma forma bastante peculiar. Agora
o cortejo já estava bastante digno do noivo. Os que compunham a procissão animavam o ambiente com muitas diversões.
De sua parte Himalaia ergueu um pavilhão indescritível. Todas as montanhas existentes no mundo e todos os bosques e
florestas, mares, rios e lagos foram convidados por Himachan (segundo as escrituras hindus, cada parte da natureza, cada
região, rio ou montanha, oceanos ou mares, está presidida por um espírito, o texto se refere a esta classe de espíritos).
Capazes de assumir a forma que quisessem, adotavam belos corpos e chegavam na casa de Himachala com seus séqüitos e
belas esposas. Ali se encontravam inclusos as imensas matas brasileiras e todos os seus habitantes legendários e nativos em
pompas de incomparável beleza e esplendor! Todos entoavam canções de alegria pelo carinho que sentiam.

O rei da montanha havia mandado decorar com gosto várias casas, todos os convidados foram alojados nelas, cada um
ocupando a que lhe correspondia segundo sua posição. O esplendor da cidade era tão cativante que depois de admira-la uma
vez, a capacidade criadora do próprio Brahma parecia pequena demais. Pela magnitude de todos presentes ali as árvores e
jardins, ruas, lagos e rios eram de inesquecível beleza. Cada casa estava decorada com arcos triunfais, bandeiras e
estandartes. Os homens e mulheres da cidade eram tão agradáveis e inteligentes que chegavam a cativar os corações dos
sábios. A cidade na qual tinha encarnado a mãe do universo superava qualquer descrição. A prosperidade, o êxito,
aumentavam e se manifestavam de novas formas.

Quando ouviu o cortejo do noivo chegando, a cidade se sentiu comovida e parecia ainda mais bela. Um grupo de homens
adornados e com veículos decorados de muitas formas se adiantou para receber o cortejo do noivo. Ao ver os imortais, seus
corações se alegraram. E ainda se sentiram mais felizes ao ver Sri Rama (Vishnu). Mas ao ver a comitiva de Siva, todos os
animais sobre os quais montavam, começaram a retroceder e fugir cheios de medo. As pessoas mais velhas raciocinavam e
ficavam paradas no seu lugar, as crianças começavam a correr para salvar suas vidas. Quando chegavam em casa e seus pais
lhe perguntavam, falavam com todo o corpo tremendo de medo: “Que podemos dizer? O aspecto não se pode descrever.
Não sabemos se era o cortejo do noivo ou o exército da morte! O noivo é um que cavalga um touro e seus ornamentos são
serpentes, caveiras e cinzas do crematório. Seu corpo está coberto por tais cinzas e enfeitado com serpentes e caveiras. Está
desnudo, seu cabelo é emaranhado e o seu aspecto é terrível. Vai acompanhado de fantasmas, espíritos maus, duendes, fadas
e demônios de rostos espantosos. Aquele que sobrevive ao ver o cortejo do noivo é um homem muito afortunado e só ele
será testemunha do casamento de Uma.” Isto diziam as crianças indo de casa em casa. Os pais sorriam, pois sabiam que
falavam do séqüito de Siva. Tranqüilizavam seus filhos e lhes diziam: “Não temam, não há razão para ter medo.”

O grupo que havia saído para receber o noivo e seu cortejo regressou e ofereceu belos alojamentos para todos os
convidados. Mena (mãe de Parvati) acendeu tochas de bons auspícios (dhup, feitas de resinas aromáticas) para iluminar o
noivo e as mulheres que a acompanhavam cantavam melodias de júbilo. Uma bandeja de ouro adornava as belas mãos de
Mena e esta recebeu o Senhor Hara cheia de alegria. Quando viram Rudra com seu aspecto temível, as mulheres ficaram
com muito medo. Fugiram cheias de pânico e entravam em suas casas, enquanto que o Senhor Siva se dirigia aos
alojamentos do cortejo nupcial. Mena se sentia triste e mandou chamar Parvati. Com grande carinho a fez sentar em seu
regaço; as lágrimas brotaram em seus olhos que pareciam dois lótus azuis. “E pensar que o Criador te fez tão bela e foi tão
louco de dar-te um homem tão lunático por esposo! Que estranho que o Criador que te fez tão charmosa tenha te dado um
homem tão louco por esposo! A fruta que deveria enfeitar a árvore que satisfaz os desejos se vê irremediavelmente em uma
planta espinhosa. Tomando-te em meus braços preferiria cair de cima de uma montanha, ou atirar-me nas chamas ou afogar-
me no mar. Que minha casa fique destruída e eu seja mal considerada no mundo, tudo menos deixar que tu te cases com este
louco enquanto eu esteja viva.”

Todas as donzelas ali reunidas sentiram-se aflitas ao verem tão triste a esposa de Himachala. Recordando o carinho de sua
filha, se lamentava, chorava e exclamava assim: “Que mal fiz a Narada para que tenha arruinado assim minha casa e
aconselhado de tal forma a Uma que esta teve de sofrer penitências para conseguir um marido louco? Na realidade o sábio
Narada desconhece a paixão e o carinho; não tem riqueza, casa nem esposa e permanece indiferente perante tudo. Por isto se
dedica a destruir a casa dos outros. Ele não tem vergonha nem temor. Que sabe uma mulher estéril das dores do parto?” Ao
ver sua mãe tão triste, Bhavani lhe falou com doçura e prudência dizendo: “O que a providência planejou não se pode
alterar. Compreende isto e não fique preocupada, mãe. Se meu destino é ter um esposo louco, para que vamos culpar
alguém? Podes culpar a lei da providência? Assim pois, não te lamentes desnecessariamente. Não te culpes de nada, cesse
de queixar-te, este não é o momento para lamentos. Aonde quer que eu vá devo recolher toda a alegria e tristeza que me
forem destinadas.” Ao ouvir a suavidade e coerência das palavras de Uma, todas as mulheres se entristeceram. Culpavam o
Criador com vários argumentos e caíam lágrimas de seus olhos.

Ao interar-se deste fato, Himachala se dirigiu para casa acompanhado de Narada e dos Sete Sábios. Narada tranqüilizou a
todos, contando a vida passada de Uma e disse: “Mena, escuta minhas palavras de verdade. Tua filha não é outra senão
Bhavani (a eterna companheira de Siva), Mãe do universo. Ela é a divina energia imperecível e não criada, que não tem
princípio. Ela é a metade inseparável de Shambho. Ela cria, sustenta e destrói o universo e toma o aspecto de uma forma
material segundo seu desejo. Primeiro nasceu na casa de Daksha; seu nome era Sati e sua forma bela. Nessa encarnação Sati
também se casou com Siva. A história é bem conhecida em todo mundo. Um dia quando regressava para casa com
Shamkara, viu Sri Rama que é como o Sol para a dinastia de lótus dos Raghus. Maravilhada por seu olhar, não escutou os
conselhos de Siva e se enganou ao querer disfarçar-se de Sita (esposa de Sri Rama). Shamkara a repudiou porque Lhe havia
ofendido fazendo-se passar por Sita. Uma vez separada de Hara, foi presenciar o fogo sacrificial (Yaguia) preparado por seu
pai e se consumiu no fogo gerado por seus poderes yoguis. Agora, voltou a nascer em tua casa e passou por grandes
sofrimentos para ganhar o favor de seu senhor. Assim, pois não duvides mais; Guiridja, tua filha, é a eterna bem amada de
Shamkara.”

Ao ouvir o relato de Narada, a tristeza desapareceu de seus corações. Num instante estas novas se divulgaram por toda
cidade. Logo Mena e Himavan se regozijaram e se prostraram aos pés de Parvati repetidas vezes. Todos os cidadãos,
homens, mulheres e crianças, tanto os jovens quanto os anciãos se sentiam felizes. Começou a se ouvir canções de festa,
colocaram potes de ouro por todas as partes. Preparou-se uma infinidade pratos diferentes de acordo as leis gastronômicas.
Himachala chamou todos os membros da comitiva do noivo, incluindo Vishnu, Brahma e outros deuses. Os cozinheiros
convidados começaram a lhes servir. Ao ver os deuses comendo, grupos de mulheres começaram a rodear-lhes, cantando
suaves melodias.

Belas mulheres lhes cantavam doces melodias e lhes provocavam de diversas formas. Os deuses se divertiam muito
escutando-as e o banquete durou muito tempo. A alegria presente na cena não pode ser descrita nem por milhões de línguas!
Depois de lavar a boca com água no final da cena, os deuses receberam folhas de noz moscada e regressaram aos seus
alojamentos.

Os Sete Sábios chamaram Himavan e leram as anotações onde estava escrita a hora fixada para o casamento; vendo que
havia chegado este momento, Himavan mandou chamar os deuses. Himachal preparou um bom lugar para cada um dos
deuses. Levantou um altar seguindo o ritual dos Vedas e as mulheres entoavam belos cânticos sagrados e mantras. Sobre o
altar se colocou um charmoso e divino trono com um par de leões nos braços; havendo sido obra do próprio criador, este
trono superava toda imaginação. Inclinando a cabeça perante os brahmins e recordando seu mestre Vishnu, Siva tomou
acento no trono.

Neste momento, para a grande surpresa dos convidados ali presentes, os adornos de Siva e de sua comitiva se
transformaram de súbito nas mais requintadas e belas obras ornamentais do universo, a cinza de seu corpo cedeu lugar ao
traje mais belo e garboso de todos. O aspecto temível dos seus atendentes se transformou em feições divinas e de beleza
insuperável, emitiam uma fragrância inebriante que colocou todos em puro êxtase, eram muito belos e alguns deles
pairavam nas alturas com seus renovados aspectos, derramando chuvas de flores jamais vistas, vindas das regiões celestiais,
muitas de pétalas iridescentes e com transparências e perfumes encantadores. Os sons que emitiam eram uma vibração
indizível e o ambiente se encheu do mais requintado esplendor que o universo foi capaz de presenciar!

Então os sábios foram buscar Uma que vinha acompanhada de suas donzelas e ricamente trajada. Todos os deuses ficaram
extasiados ante sua beleza. Que poeta seria capaz de descrever tanta harmonia? Reconhecendo nela a mãe do universo e
esposa de Siva, as divindades se prostraram mentalmente perante a Deusa. A perfeição e a beleza de Bhavani não podia ser
enaltecida nem por milhões de vozes. A Mãe Bhavani, caminhou até o centro do pavilhão circular onde estava Siva. Por sua
timidez, não podia olhar os pés de lótus de Seu Senhor, ainda que Seu coração permanecesse fixo neles como uma abelha.
Seguindo as instruções dos sábios, Shambho e Bhavani ofereceram honras divinas ao Senhor Ganesha (filho de Siva e
Parvati). Que ninguém se admire disto pois os deuses são eternos e existem desde sempre.

Os grandes sábios celebraram a cerimônia com todos os detalhes como está assinalado nos Vedas. Colhendo a erva sagrada
e tomando a noiva pela mão, o rei da montanha Himalaia a ofereceu para Bhava (Siva) sabendo que ela é sua eterna
companheira. Quando o grande Senhor Siva tomou a mão da noiva, os grandes deuses se alegraram em extremo. Os sábios
cantavam as fórmulas védicas (mantras), enquanto os deuses exclamavam: “JAYA SHAMKARA, JAYA SHAMKARA...”
Querendo dizer; toda vitória a Shamkara! Ouviam-se instrumentos de todos os tipos e do céu caiam infinitas variedades de
flores. Assim foi concluído o casamento de Hara e Guiridja. Grande regozijo reinava em todo universo.

A ORIGEM DO TANTRA E DA YOGA

Após a consumação do casamento, Siva e Parvati com sua comitiva, se recolheram para a moradia de Shamkara no monte
Kailesh (no sul do Tibet, quase fronteira com a Índia, ponto milenar de peregrinação de yoguis e hindus). Ananga, o deus do
amor, mesmo sem corpo se fazia presente por sua emissária, a rainha das estações, a primavera. Todas as montanhas e vales
circundando o local de Siva, pareciam a moradia eterna da primavera e seus encantos, as flores e seus aromas formavam
uma quilométrica guirlanda natural ao redor da sagrada montanha.

As núpcias do casal divino transformaram os pares opostos de todo o universo em complementos um do outro e todo
conflito pausou em trégua. O significado do termo yoga surgia neste momento com a consumação da perfeita união.
Encontrava-se ali a origem e finalidade da yoga (união). Ocorria a união do criador com a criação, do espírito universal com
a natureza, do que está em cima com o que está em baixo. A harmonia era a ordem no universo inteiro e o contentamento
existencial se estendeu para todas as criaturas moveis e imóveis. O júbilo e o êxtase eram sentidos em cada célula ou
partícula da criação e a paz encontrava-se em seu palácio e reinado absoluto.

Por milênios ininterruptos as núpcias prosseguiram, os jogos amorosos do casal formaram a base de toda iniciação ao amor
que se tenha conhecimento e era totalmente dedicado ao momento mais divino da existência de tudo; a harmonia universal.
As escrituras tântricas que ensinam a união e a sublimação da energia sexual, tais como Kama Sutras e o Ananga Ranga, as
conhecidas e as nunca divulgadas, contendo as sessenta e quatro posturas para a união e as mais diversas carícias que são
capazes de transformar seres humanos em divindades no amor, foram inspiradas em apenas uma faísca do que veio a ser as
núpcias de Siva com Shakti.

Após a conclusão das núpcias, a primavera não mais queria abandonar as imediações do monte Kailesh. E Parvati não
abandonava a presença de seu Senhor. Siva, tendo sempre a Mãe do universo e sua amada em seu colo, sentada sobre sua
coxa esquerda e lhe servindo como trono para o reinado do amor universal, lhe relembrou os conhecimentos da sabedoria
infinita, contendo os segredos dos princípios da energia da força da vida que permeia toda a criação e lhe mostrando como o
criador encontra-se presente e manifesto em tudo isto. Entre seus carinhos transcorria o diálogo de ambos onde a sabedoria
fluía naturalmente como a água o faz no leito livre de um rio sagrado. No diálogo divino, os ensinamentos que vinham de
Siva, o mestre amado de todos os yoguis, foram denominados de AGAMAS e deram origem a muitas escrituras que os seres
divinos revelaram aos sábios em suas meditações. Os trechos onde Parvati se dirigia a Shambho ficaram conhecidos com o
nome de NIGAMAS. Formou-se assim um riquíssimo compêndio literário na forma de diálogo entre Siva e Shakti e foi
denominado de TANTRA SHASTRAS (escrituras do tantra), ali se encontrava a ciência yogui com suas técnicas. Contendo
sessenta e quatro obras principais, a maioria desconhecida e/ou desaparecida nos tempos atuais. Muitas delas foram raptadas
pelos budistas que as mantinham sob vigilância em uma torre no sul da Índia.

Como a natureza e os deuses também foram participantes desta união, revelaram por sua vez os seus respectivos
TANTRAS. Surya, a divindade solar, o deus Sol, com seus adeptos formaram o SAURA TANTRA, suas escrituras e
linhagem. Vishnu, com seus devotos constituíram o VAISHNAVA TANTRA. Igualmente, um dos filhos de Siva e Parvati,
o Senhor Ganesha, formou o compêndio e tradição dos GANAPATYA TANTRA. E por sua vez, os que vieram diretamente
de Parvati ficaram identificados como SHAKTA TANTRA e formam a tradição, práticas e escrituras mais significativas. O
TANTRA que é dedicado a Siva diretamente é o SHAIVA TANTRA. Com o decorrer dos tempos os cinco TANTRAS
haveriam de se espalhar pelos cinco continentes para o benefício de todos no mundo.

Após a síntese de toda a criação ter sido repassada, com os segredos de seu aparecimento, manutenção e dissolução, por
meio de fórmulas (mantras), diagramas (yantras) e as diversas práticas para tal. Em um belo dia Parvati indagou ao seu
Senhor: “Oh divindade venerável, de todos os rituais dedicados à sua honra, qual deles mais Lhe agrada?”

O Senhor respondeu: “A décima quarta noite, um dia antes da Lua Nova, na quinzena escura (da cheia para a nova), que cai
ora no final de Fevereiro ou no início de Março (no calendário hindu, os meses são duplos e o ano tem seis meses, portanto
estes dois são o mês de Phalgun), este é o meu dia predileto. É conhecido como Shivaratri, a noite de Siva, a data de nosso
casamento. Meus devotos Me proporcionam maior felicidade por meio de mero jejum do que grandes rituais com oferendas
de banhos, flores, jóias e incenso.”

Parvati estava profundamente impressionada pela fala do Senhor Siva. Ela repetiu isto para suas amigas, que por sua vez
repassaram para as princesas governantes da Terra. Assim a santidade de Shivaratri foi divulgada para o mundo inteiro.
Tanto na Índia quanto em outras partes do mundo, Shivaratri é comemorado de diversas maneiras, dentro e fora do
hinduismo. Aqui seguem algumas sugestões para se beneficiar com as bênçãos do Senhor dos yoguis, Yoguiraj (Siva):
Jejum (ingerindo muito líquido), durante o dia e vigília noturna. A prática de JAPA (repetição de mantra) do mantra OM
NAMA SHIVAYA pelo tempo mais prolongado possível. Reunir-se a outros com a mesma finalidade. Meditação em geral.
Meditar na forma do Senhor Siva unido a Sua esposa divina, ela ao lado esquerdo de Seu esposo, sobre a perna esquerda
deste. A figura da Deusa é cheia de pequeninas luzes cintilantes e coloridas, ambos possuem uma imensa lótus vermelha
como assento e à frente do casal uma grande coluna de luz vertical adornada com flores e folhas ovais da árvore BEL
(árvore frutífera da Índia, dedicada a Siva). Medite no amor e aconchego que emana da união do casal celestial. Meditação
em Ajna (Águia) Chakra, no ponto entre as sobrancelhas com o mantra OM NAMA SHIVAYA. Iniciações yoguis são bem
sucedidas neste dia. Há muitas formas de se aproveitar esta data que favorece de forma acentuada a evolução, a sabedoria, o
amor, a harmonia e o progresso yogui com prosperidade. Esforços espirituais neste dia equivalem a anos dos mesmos. Pode-
se influenciar a vida pessoal, coletiva e até os rumos de uma nação inteira!

O rei dos textos originais do TANTRA é uma escritura para yoguis que possuem iniciação monástica e que se encarregam
da missão de dar iniciação em yoga e Tantra para os demais, conhecido pelo nome de “MAHANIRVANA TANTRA” (O
TANTRA DA ILUMINAÇÃO), possui duas partes ou dois tonos, o primeiro é bem conhecido e o segundo é um segredo
não revelado, pois ensina as fórmulas e diagramas para a reconstrução, manutenção e destruição (transformação) do
universo manifesto. Nos aponta a origem de tudo e como não poderia deixar de faltar, a origem do próprio TANTRA e da
YOGA. Em sua primeira parte intitulada “A ILUMINAÇÃO DOS SERES”, consta o que se segue.

“O encantador pico do Senhor das Montanhas, o cume do monte Kailesh, resplandecente com todas as várias jóias, vestido
com muitas árvores e trepadeiras, melodioso com o canto de inúmeros pássaros, perfumado com a essência da fragrância de
todas as flores da estação, o mais belo; abanado por brisas suaves, frescas e perfumadas. Sombreado pelas sombras
rendilhadas de frondosas copas unidas; onde bosques frescos ressoam as vozes de grupos de Apsaras (dançarinas celestiais
de cantos hipnóticos) e com florestas que abrigam bandos de pássaros que cantam enlouquecidos de paixão. Lá a rainha das
estações com suas flores, fez a sua moradia permanente, o Senhor das Montanhas, o sagrado Kailesh (conhecido como
Meru, nas escrituras antigas); povoado por sábios e yoguis da mais alta categoria e aquisição espiritual (Siddhas),
Gandharvas (dançarinos e músicos celestiais, esposos das Apsaras), Ganapatyas (seguidores do filho de Siva, Ganesha)”
V.1-5

“Foi ali onde Parvati, encontrando Siva, Seu Senhor gracioso, em um estado de ânimo sereno, curvando-se em reverência e
para o benefício de todos os mundos lhe indagou. O Deus silencioso, Senhor de todas as coisas moveis e imóveis, o todo
benévolo e sempre bem-aventurado; o néctar do qual a misericórdia se encontra como um grande oceano, cujo corpo é pura
sabedoria e paz absoluta; que é branco como a cânfora e a flor do jasmim, onipresente, cuja única vestimenta é o próprio
espaço, Senhor dos pobres e o Mestre amado de todos os yoguis, em cujos cabelos torcidos por sobre a cabeça formando um
gracioso coque as águas do rio Ganges depositam suas primeiras gotas ao nascer e que tem cinzas como o único ornamento
de seu corpo; aquele que está livre das paixões, que possui serpentes formando guirlandas em seu pescoço junto a caveiras
de crânios humanos, que possui três olhos, Senhor dos três mundos (representação do seu tridente, os mundos físico, mental
e espiritual; ou denso, sutil e transcendental), com um tridente em uma das mãos e a outra em ABHAYA MUDRA (atitude
de dar bênçãos); que é fácil de invocar e propiciar, cuja substância é composta de sabedoria incondicional, o doador da
libertação eterna e iluminação, na presença de quem o medo não se manifesta, imutável e eterno, sem defeitos ou falhas,
benfeitor de todos os seres, o Deus de todas as divindades” V. 6-10

“Sri Parvati disse:

-Oh Deus dos Deuses, Senhor do mundo, Jóia da Misericórdia, meu marido, Vós sois meu Senhor, em Ti sou sempre
dependente (por serem da mesma essência) e a Ti sou sempre obediente. Tudo o que falo sempre é pela Tua fala. Oh grande
Senhor, se tens afeto por Mim, Lhe suplico que Me esclareça o que passa por Minha mente. Quem mais senão Tu, oh
Senhor Magnânimo, nos três mundos seria capaz de dissolver minhas dúvidas, pois conheces todas as escrituras e tudo
quanto há.” V. 11-13

“O Senhor Siva disse:

-O que foi que disse? Oh grande ser de soberba sabedoria e amada de meu coração, Eu Lhe revelaria qualquer coisa,
estivesse o quanto fosse envolto em tamanho mistério que não pudesse ser dito nem na presença de nossos filhos Ganesha e
Skanda o comandante dos exércitos do seres divinos (que encarnou par livrar os deuses das imposições dos seres
demoníacos, como consta na história de Shivaratri). O que poderia haver nos três mundos que estaria ocultado de Ti? Pois
Tu és o meu próprio Ser. Não há nenhuma diferença entre Mim e Vossa Pessoa! És onipresente, o que haveria então que
ainda não conheças para que me indague desta maneira como quem nada sabe?” V. 14-16

“A pura Parvati, contente ao ouvir o relato do Deva (ser divino), curvando-se em reverência pediu a Shamkara que Lhe
revelasse os meios para a iluminação e eliminação dos sofrimentos na era atual em benefício da humanidade e dos seres
vivos, assim como o fez nas eras anteriores revelando em sua divina misericórdia por meio de Brahma os Vedas e a yoga
védica (diferente da atual e impraticável à humanidade nesta era). Os SMRITIS em uma outra era. Os SAMHITAS ou
PURANAS na sua correlata. O Senhor Shambho então ensinou os TANTRAS para os tempos modernos e as yogas e
meditações que hoje conhecemos.”

V. 17-74

Muitas foram as encarnações de Siva entre os seres humanos de nossa era, sendo que uma das mais importantes foi Sri
SHAMKARACHARYA (literalmente, o emissário de Shamkara). Ele organizou os ensinamentos yoguis e tântricos,
escreveu várias obras e fundou uma ordem monástica para servir como depositário destes conhecimentos na Índia e no
mundo de hoje: A ORDEM DASHNAMI DE SHAMKARACHARYA. Reencarnou recentemente como Swami Sivananda
Sarasvati, um monge desta ordem e divulgou pela primeira vez a público na Índia e no mundo a yoga em grande extensão,
que até então era revelada apenas de maneira secreta de guru para discípulo. Swami Sivananda desencarnou em 1964 nas
margens do rio Ganges, predileto do Senhor Siva. Um de seus mais importantes discípulos diretos, Paramhamsa Swami
Satyananda foi que pessoalmente trousse esta missão ao Brasil em 1975 a pedido e convite da embaixatriz da Índia em
Brasília. Sua visita foi registrada nos jornais locais de Brasília e ocorreu no dia 15 de Outubro de 1975. O primeiro
brasileiro a ir para a Índia para estar na presença do sagrado Mestre foi o paulista Swami Hamsannanda Sarasvati, que após
anos de aprendizado junto ao Guru fundou em 2001 a ASSOCIAÇÃO YOGUINI MONÁSTICA para servir de identidade
ao trabalho brasileiro que então já tinha 26 anos ininterruptos de andamento. Outros Swamis (mestres desta ordem tem este
título) vieram trazer a yoga ao ocidente, foram eles Paramhamsa Swami Yogananda, Swami Vivekananda, Swami
Muktananda, Swami Rama, Swami Tilak e outros, todos pioneiros a serviço do mestre amado de todos nós o Senhor Siva,
sob as bênçãos honradas de Sua esposa divina e nossa protetora, Parvati Devi. Que a Seus pés me prostro neste momento,
feliz em Suas bênçãos que nos chega a todos neste: OM TAT SAT.

De acordo a tradição e as escrituras, o Senhor Siva é o fundador da yoga. Ele criou as práticas e as ensinou a seu primeiro
discípulo, Parvati. As ASANAS ou posturas de yoga foi a parte que mais se popularizou, é dito que eram originalmente
8.400.000 diferente Asanas e que representavam as 8.400.000 encarnações que cada indivíduo deve passar antes de se
atingir iluminação, ou libertação do ciclo de nascimentos e mortes. Tais posturas representam a evolução desde a forma
mais simples de vida ao ser humano iluminado como um PURNA YOGUI; o yogui completo. É dito que praticando todas
estas posturas devidamente, uma pessoa pode ultrapassar todas encarnações em apenas uma vida e ao mesmo tempo adquirir
o amadurecimento equivalente a ter vivido todas estas vidas em simplesmente uma encarnação.

No decorrer dos séculos, as asanas yoguis foram modificadas e reduzidas em número pelos grandes sábios e yoguis a tal
ponto que hoje só se conhece algumas centenas delas. Destas, apenas 84 são explicadas e tão somente umas 32 são tidas
como úteis para o homem moderno.

A SIMBOLOGIA DE SHIVARATRI

A simbologia é riquíssima e move elementos básicos universais da mente sub-consciente ao se travar contato com a história
e de maneira muito favorável. Em primeira mão temos a aproximação do aluno, discípulo (Parvati, Shakti), ao mestre dos
yoguis (Shiva). É o marco tradicionalmente oficial do início em yoga e tantra, tantra e yoga são como teoria e prática de
uma mesma matéria e doravante não faremos mais diferenciação neste texto em mãos e trataremos ambos por simplesmente
yoga. Antes do aparecimento do mestre yogui na vida de um praticante ele se encontra ao nível da busca, um aspirante e sua
evolução é mínima com as práticas. Após o encontro não haverá mais busca, mas encontros! Em yoga há os que buscam, os
que encontraram e tentam se firmar em sua conquista e os que são aquilo que se busca, estes últimos gozam de uma
conquista tão sólida em yoga que são um com aquilo que todos buscam.

Yoga só começa quando encontramos quem nos ensine, na tradição yogui não são aceitos casos de pessoas que tiram itens
de sua mera imaginação e assim se auto-intitulam yoguis, mestres, etc. Alguém aprendeu com alguém e todos aprenderam
com o Senhor Shiva, o mestre número um, o primeiro! Quando isto é assim, então sabemos o que se pratica e o que se
conquista com as práticas, do contrário o rendimento é incerto e duvidoso. Os benefícios após a iniciação obtida de um
mestre autêntico podem ser verificados com exatidão pelo praticante, é tipo antes e depois.

O relacionamento entre mestre e discípulo é o mais rico da existência e baseado em amor universal, respeito, alegria,
entusiasmo e dinâmica, assim temos simbolizado a forma elevada e carinhosa com que a história retrata o relacionamento de
Shiva e Parvati. Na verdade não é algo imposto a ninguém, se desenrola livremente como decorrência do nível de evolução
e maturidade do discípulo e tudo que ocorre entre eles move o ser inteiro do yogui e nada mais é do que um reflexo de dois
fluxos. Ao ter atraído para sua experiência o contato com o conto de SHIVARATRI, algo deve ter ocorrido em sua evolução
para ter tido isto como reflexo.
Os muitos monstros que são representados como os atendentes e seguidores do Senhor Shiva somos nós, os yoguis em
estado de evolução, suas grotescas imperfeições são o reflexo de nossas atuais imperfeições e limitações, sofrimentos e
bloqueios. A prática nos leva à perfeição e quando nossa energia vital (Parvati) se une a consciência, ou o espírito, aquilo
que atualmente são nossos defeitos, serão nossas futuras virtudes, na versão correlata. Por exemplo, se o yogui busca se
livrar de insatisfação existencial, com suas práticas culminando em amadurecimento a sua virtude natural e não
superficialmente imposta, será a plena satisfação existencial. Shivaratri é um marco decisivo na yoga e no yogui! Yoguis
evoluídos são bem conscientes dos marcos em seu caminho evolutivo, pois são referências concretas de sua conquista na
evolução. O evento é no âmbito universal e possui a participação de todos, é a união do individual com o universal, do
social com o cósmico, do hemisfério direito com o esquerdo no cérebro, do mundo objetivo em complemento com o mundo
subjetivo, onde antes se registrava conflitos entre os dois.

Note que foi Parvati quem tomou a iniciativa e se moveu em direção à conquista de seu companheiro cósmico. Parvati é a
mente e Shiva o espírito, consciência, quando a percepção mental, que é a substância essencial da mente, se move no
sentido de se fixar na experiência do espírito, da essência da existência em si mesma, ocorre tecnicamente yoga e quando ela
se fixa em algo de mental, como pensamentos, sentimentos, sensações, ou nas experiências geradas pelos cinco sentidos
(tato, audição,etc), aí então ocorre BHOGA, o contrário de yoga, que é desagregação, ao passo que yoga é agregação de
energia vital e mental. Em resumo, em yoga as disciplinas mentais e físicas são o que existem de grande importância na
conquista de paz interior e sabedoria, bens do espírito, do Senhor Shiva. Em tantra, nas práticas de união homem e mulher, é
a mulher quem faz a dinâmica e a inicia. O simbolismo da união e complementação dos pares opostos, contida
maravilhosamente no conto de Shivaratri, é aplicado em tudo na yoga, é o sentido da palavra yoga, o seu fundamento,
filosofia básica e finalidade.

COMO SE CAMINHA DO INÍCIO AO FIM EM YOGA

Shakti, Parvati, é tudo aquilo que se pode experimentar no universo manifesto, e como Einstein já dizia, o universo inteiro é
luz, pura energia. Em yoga isto é apenas o aspecto de maior densidade na existência em si, há ainda o mais sutil, o
imanifesto e que não significa inexistente. Em yoga evoluímos do mais denso ao mais sutil, quanto mais sutil a energia,
mais intensa e forte ela é, na física isto se explica muito bem. Começamos em yoga com disciplinas do corpo para a mente e
da mente para a consciência, ou o espírito, daí para o cósmico. Isto é o movimento de Parvati em direção à conquista de seu
amado. Quando saímos de práticas de yoga que tenham este rumo, voltamos com as energias intensificadas, renovadas, o
bem estar é pleno! Portanto evoluir em yoga não quer dizer que o praticante deva ficar só no corpo físico e praticar até
desenvolver as disciplinas corpóreas ao ponto do contorcionismo. Ora, um macaco faz isto melhor e nós evoluímos dele,
que evolução é esta que se volta a fazer de maneira ainda mais mal feita o que um primata de cérebro mais primitivo é capaz
de executar com maior habilidade. Vamos das práticas corpóreas mais densas, tais como posturas (asanas), para as mais
sutis, como as respiratórias (pranayamas) que trabalham com maior ênfase o circuito da energia vital, o prana... E daí para
as mentais, as emocionais, as espirituais, até chegar na fonte de origem da vida em nós e em tudo, nos revigorarmos e
abastecermos nossas forças nela, a mais pura!

Podemos unir os pares opostos no corpo, com o corpo, com o nosso único corpo físico ou com outro, na união conjugal.
Quando o fazemos de forma solitária temos um conjunto de técnicas e quando a união de Parvati com Shiva é a dois temos
outro conjunto de práticas. Em TANTRA, as escrituras, iniciações, práticas e conceitos de união Parvati com Shiva feita de
forma solitária se denominam DAKSHINA TANTRA e quando em comunhão conjugal VAMA TANTRA. O famoso
HATHA YOGA significa HA (o SOL, energia física) e THA (a LUA, energia mental) em união, ou seja HATHA (energia
espiritual), juntos são um método do sistema de DAKSHINA TANTRA. Isto é só um exemplo. Para a prática de VAMA
TANTRA um corpo yogui é indispensável e disciplinas de HATHA YOGA são aplicadas para tal. De alguma forma, o que
vem a ser uma pequena parte de um ou outro método de VAMA TANTRA ou VAMA MARGA se popularizou
vulgarmente como TANTRA, no ocidente. As sessenta e quatro posturas yoguis de união Shiva Shakti não são a única
disciplina em TANTRA e muito menos são a sua finalidade, apenas um meio para um fim. O complemento dos pares
opostos ocorre silenciosamente em nós mesmos e em comunhão com o todo em um grau crescente de harmonia e
complementação em tudo nas nossas vidas. Exercícios e técnicas são milhares em TANTRA E YOGA, mas a finalidade é
uma só!

VAMA TANTRA e DAKSHINA TANTRA tem sido erroneamente traduzidos como sendo TANTRA da Mão Esquerda e
TANTRA da Mão Direita, respectivamente. VAMA quer dizer esquerda sim, mas também significa “esposa” e segundo
Paramhamsa Satyananda é esta a correta conotação do termo e embora DAKSHINA também seja direita, a conotação é seu
outro significado, ou seja “dádiva de si, dedicação”. DAKSHINA tem vários significados. VAMA MARGA ou
DAKSHINA MARGA, MARGA significa caminho.

Em PURNA YOGA e em TANTRA os vários sistemas e métodos são estruturados em dois grupos principais denominados:
BAHIRANGA YOGA e ANTARANGA YOGA. São como Shiva e Parvati, BAHIRANGA é “externo”, são as técnicas
com o corpo. ANTARANGA quer dizer “interno”, são as práticas internas, ou mentais, emocionais. O complemento de uma
com a outra é o lado espiritual, a comunhão perfeita. BAHIRANGA (se diz barriranga) é Parvati e ANTARANGA (se
pronuncia assim mesmo) é Shiva. Evoluir é conquistar o equilíbrio entre as forças opostas, paz interior com paz externa.
Realização interna deve ser seguida e complementada com realização externa e vice-versa.

http://www.angelfire.com/ab6/om/shivaratri.html

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