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A Canção como Forma de Arte

BRUNO ISHISAKI

É evidente para mim que, nesta primei- mental (mesmo que as formações comportem
ra metade do século XXI, a distinção entre mú- efetivos vocais). Assim, considero música
sica popular e música erudita perdeu o sentido. de concerto tanto as sinfonias de Beethoven
Se preservamos estas categorizações, isto se dá quanto as apresentações de jazz, de música in-
apenas porque nos é conveniente em termos de diana, de rock progressivo, as rodas de choro,
mercado – é mais fácil pensar a música dentro os maracatus etc. Toda música cujo enfoque é
dos padrões da indústria. o mecanicismo instrumental enquadra-se para
Música popular; música feita pelo mim em música de concerto.
povo. Música erudita; música com acúmulo A canção, por sua vez, tem a ver com
de saberes, com acúmulo de técnicas. Aí lem- peças que trazem em si uma sinergia entre
bramos a todos que os compositores de música texto e música. Texto e música devem com-
dita “erudita” eram pessoas do “povo” (excetu- por em uma canção uma liga inseparável; daí
amos apenas Gesualdo e mais um punhado de eu não considerar uma peça como O King de
padres nesse cânone); do mesmo modo, como Berio uma canção, mesmo que haja nela um
a etnomusicologia não cansa de demonstrar, a efetivo vocal e um texto cantado, já que o que
música dita “popular” está repleta de camadas está em jogo nesta música de Berio é uma dis-
de saberes e de técnicas. Então, essa é uma dis- sociação do texto e da música: a produção de
tinção “fácil”, chula, vulgar, confortável, boa intensidades não se dá pela sinergia dos dois,
para ser usada pelo diletante, mas que gostaría- e sim pelas distâncias que se produz entre os
mos de ver extinguida. dois campos, que conduzem a um tratamento
Há de fato uma distinção entre os dois instrumental da voz.
tipos de produção musical, e que frequente- Existem também as peças que habitam
mente se confunde com a dicotomia popular as zonas limítrofes entre a música de concerto
-erudito: trata-se da distinção entre canção e e a canção. Alguns exemplos: Echoes da ban-
música de concerto. Como música de concer- da Pink Floyd, o disco Clara Crocodilo de Ar-
to entendo não só a música da tradição de con- rigo Barnabé, a nona de Beethoven, The Dove
certo europeia, mas também qualquer música Descending Breaks the Air de Igor Stravinsky,
cujo apelo seja preponderantemente instru- Doideca de Caetano Veloso, muito da música

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de Villa-Lobos. Ora se tem uma exploração para a parte textual, um arranjador, um pro-
das sinergias do texto e da música, ora um dutor musical, músicos para a gravação, um
enfoque nos mecanicismos e nas sonoridades empresário e uma gravadora para fazer a di-
instrumentais. Porque as zonas não são estan- vulgação. A canção acaba sendo um produto
ques, fechamentos de área ou pontos discre- muito próximo de um preservativo, uma Co-
tos: há sempre um contínuo entre os signos, a ca-Cola ou um chinelo. Todas as canções que
linguagem não consegue criar palavras para apresentam um teor artístico forte apresentam
todas as coisas. Neste ponto, Adão e Sísifo se em seus processos de produção algum tipo de
entendem. desvio desse roteiro. Seja um cancionista que
Nem me venham com essa, na estei- escreve a letra e a música ou que participa da
ra de um Tinhorão, de que a “música popular” gravação tocando um instrumento, seja pro-
se perdeu com o avanço da cultura de massa; duzindo a sessão ou vendendo e distribuindo
a cultura de massa, tal como é entendida por seu próprio trabalho.
Adorno, apenas materializou tendências que Proponho que levemos esse pensa-
já estavam há muito tempo na sociedade: o mento ao extremo: as tecnologias atuais, junto
totalitarismo da cultura de massa é o mesmo às novas velocidades da era digital, permitem
da “supremacia da música alemã”. O que há que um artista participe ativamente de todos
de belo nos seres sociais é justamente a capa- os processos de produção de suas canções. É
cidade de sobreviver aos totalitarismos e sub- possível, com um computador e uma interfa-
verter as opressões: quando a cultura de mas- ce de áudio simples, gravar os instrumentos
sa termina de firmar sua hegemonia, surgem em casa e distribuir a música livremente nas
quatro roqueiros caipiras em Liverpool e, meia redes sociais e na internet. Não dependemos
década depois, temos um Revolver, um Sarge- mais de gravadoras ou de estúdios. O único
ant Peppers, um White Album. Sim, existe um ponto em que não estamos devidamente equi-
aparato industrial opressor; sim, este aparato é pados concerne à divulgação e à distribuição
mais visível na produção de canção do que na de música.
produção de música de concerto (mas está lá Os cancionistas da velha guarda ainda pen-
também, disfarçado em traje de gala); sim, na sam em termos de especialização das com-
maior parte das vezes este aparato coloca no petências: um Chico Buarque sempre de-
mundo produtos desinteressantes. Entretanto, penderá de um Luiz Cláudio Ramos para
ele pode ser subvertido, questionado, negado, escrever seus arranjos; um Caetano não con-
revertido, instrumentalizado, tomado, possuí- segue se manter gourmet sem um Jacques
do, destruído ou ignorado. O século XXI é o Morelenbaum ou uma Paula Lavigne. Mas,
século em que o artista independente deixa de hoje, o músico pode aprender as técnicas
se vitimizar para construir seu próprio maqui- por conta própria, os materiais estão todos
nário de guerra. aí: escreva orchestration, techniques of musi-
Pensemos então na lógica da produ- cal composition ou harmony of XX century no
ção em massa, tal como é aplicada na pro- Google.
dução de canções: acontece um processo de Claro, não vivemos uma utopia. Os
especialização, no qual você tem uma pessoa acessos ainda estão obstruídos pelas questões
responsável por compor a parte musical, outra das línguas, da qualidade dos equipamentos,

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do tempo disponível, do acesso à internet. se retirássemos de suas canções a música ou a
Mas já é possível vislumbrar uma nova forma letra?
de pensar a canção, emancipando-a do pensa- Dito isto, discordo dos teóricos da can-
mento de produção industrial, substituindo-o ção que acreditam que o essencial de uma can-
por um novo artesanato. É possível pensar a ção seja o texto e a melodia. A canção é tudo.
canção no mesmo nível em que pensamos a Um arranjo diferente pode arruinar uma canção
composição de música de concerto: como for- bem-acabada; uma canção rascunhada pode
ma de Arte. ganhar vida nova se for arranjada com cuida-
O modo como eu conceituo as ques- do. Acredito em uma posição artística na qual o
tões da canção não coaduna com os cânones cancionista devém o compositor: é interessante
clássicos da intelectualidade brasileira: as que ele decida e participe de todos os proces-
análises semióticas não me convencem; as sos, negando a lógica da indústria. Nesse pon-
análises harmônicas de canções do Tom Jo- to, Paul McCartney foi vanguarda na década de
bim me parecem coisa de criança; os diletan- 70 quando gravou Band On The Run tocando
tismos que concernem ao “fraseado” me irri- quase todos os instrumentos e produzindo seu
tam; os cacoetes tomados como “estilo” me próprio trabalho.
deprimem. A canção é uma forma de Arte, há O cancionista precisa desenvolver
algo de inefável em sua técnica. Certas coisas uma série de perícias: uma sensibilidade em
não podem ser teorizadas a respeito da canção relação a textos poéticos, uma paleta de téc-
(e também da composição musical). nicas composicionais que permita que ele
A sinergia entre música e texto produz trabalhe adequadamente a sua música, um
um tipo de intensidade tão imediata e intuitiva senso de sinergia, vocabulário, repertório,
que faz com que uma pessoa sem formação um pensamento em relação à orquestração, a
musical tradicional seja capaz de cantar inter- capacidade de engendrar campos poéticos, a
valos de sétima afinados sem perceber o quão disposição para jogar sua música no mundo
difícil é esse feito. Nesse ponto, John Blackin e uma reserva inesgotável de energia. Foi-se
está certo. o tempo em que era só rascunhar uma melo-
E é por causa dessa sinergia que me dia e tocar alguns acordes no violão. Agora a
sinto ferido quando ouço uma canção ser to- parada ficou séria. O mundo precisa de boas
cada como se fosse música instrumental: Tom canções – se ninguém as fizer, serão mais
Jobim sem letra vira mera música de elevador. lacunas para a indústria preencher com seus
Ou quando chamam Chico Buarque de poeta: produtos gourmet e premium. Lembre-se dos
Chico Buarque é muitas coisas, mas poeta não Cavalos de Troia. Lembre-se das bombas re-
é uma delas. As letras do Chico são indissoci- lógio. Cheque seu inventário. Vá ganhar XP.
áveis de sua música, assim como são indisso- Porque vai chover. Vai chover pra caralho.
ciáveis de seu machismo, de seu alcoolismo,
de seu brilhantismo e de seu perfeccionismo.
As letras de um Caetano são indissociáveis de
sua música, bem como de seu oportunismo,
de sua megalomania, de sua volatilidade e de Bruno Ishisaki é cancionista, compositor
sua genialidade. O que seria de um Jorge Ben e doutorando em música pela Unicamp
brunoishisaki.com

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