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Pe.

Antônio Mattiuz

Nulidade Matrimonial
Como obter a declaração de nulidade
de um matrimônio aparente

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Pe. Antônio Mattiuz

Nulidade Matrimonial
Como obter a declaração de nulidade
de um matrimônio aparente

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Pe. Antônio Mattiuz. Todos os direitos reservados. Agosto de 2014.
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sua forma original, sem acréscimo ou subtração de textos ou imagens. Ele não pode ser
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Nulidade Matrimonial
Como obter a declaração de nulidade
de um matrimônio aparente.

ÍNDICE GERAL

Pág. 07 - Introdução.
Pág. 08 - Informações Gerais: matrimônio, nulidade, tribunais e sua competência, custas,
tempo de duração de um processo.
Pág. 10 - Nascimento de um matrimônio pelo Consentimento.
Pág. 11 - Os 12 impedimentos: idade, impotência, vínculo, assassinato, culto, Ordem,
voto, parentesco, afinidade, honestidade, adoção.
Pág. 14 - Os 09 vícios de consentimento: uso da razão, discrição de juízo, causas
psíquicas, ignorância, erro, dolo, simulação, condição, coação e medo, amor.
Pág. 23 - Os defeitos de forma: local, fórmulas, ritos, autoridade do assistente.
Pág. 24 - Validação de matrimônio nulo – Sanação na raiz de matrimônio nulo.
Pág. 25 - Principais passos de um processo de Nulidade e o tempo que leva.
Pág. 29 - Modelo de Libelo.
Pág. 30 - Como fazer um Libelo. Observações importantes.
Pág. 31 - Interrogatório do Juiz Auditor.
Pág. 32 - Câmaras Judiciais Auxiliares nas dioceses ou em cidades.

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O AUTOR:

Pe. Antonio Mattiuz é mestre em Direito Canônico, presidente do Tribunal Eclesiástico


de Belém, atua como juiz há 33 anos, é advogado da justiça civil com 26 anos de
atividade, tem licenciatura plena em teologia, filosofia, história e direito civil.
Pe. Antonio Mattiuz foi membro da Coordenação da Catequese da Diocese de Caxias do
Sul, RS por quatro anos, coordenou a Catequese da Arquidiocese de Belém nove anos
(2004-2013), publicou vários livros de Catequese e um de Iniciação litúrgica.

LEGENDA:
C. (c.) = Cânon do Código de Direito Canônico. É o mesmo que Artigo.
CC.(cc.) = Cânones do Código de Direito Canônico.
CDC = Código de Direito Canônico.
Libelo = É o pedido feito pelo Autor para dar início a um Processo Canônico.
Demandante = É quem dá início a um Processo Canônico. É o mesmo que Autor.
Demandado = É quem responde ao Processo, isto é, quem não inicia o Processo.
Auditor = É o juiz que interroga e ouve as partes, e que recolhe provas.
Relator = É o juiz que redige a sentença. Geralmente é o presidente do Processo.
Presidente = É o juiz que preside um processo ou que preside um Tribunal
Vigário Judicial = É o juiz que atua com a autoridade do Arcebispo Moderador.
Moderador = É o Arcebispo ou Bispo responsável por um Tribunal.

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Nulidade Matrimonial
Como obter a declaração de nulidade
de um matrimônio aparente.

INTRODUÇÃO:

A Igreja católica é mãe santa, sábia e misericordiosa. Ela imita Jesus Bom Pastor que
busca a ovelha perdida, ferida ou extraviada.
Alguns católicos, geralmente por ignorância, erraram a direção e mergulharam no
caminho do pecado público ao tentarem formar uma família contra a lei de Deus, casando
só no civil ou se amasiando. Outros casaram na Igreja sem a devida preparação, sem o
equilíbrio necessário ou sem a capacidade de formar comunhão de vida e de amor ou sem
a liberdade necessária.
Por isto vários casamentos, em vez de fazer a felicidade ao casal, tornam sua vida um
purgatório e por isso fracassam.
Depois da separação, alguns católicos casaram novamente no civil ou se juntaram. Com
isso mergulharam num estado objetivo e público de pecado.
Nessa situação eles se sentem mal, choram e sofrem por não poderem ter vida plena na
Igreja, não podem comungar e nem receber o perdão na confissão.
Com isto eles se sentem deslocados e marginalizados diante da Igreja e de Deus.
A Igreja não exclui e nem marginaliza esses seus filhos. Ela faz tudo o que pode para
ajudar essas ovelhas feridas do rebanho do Senhor.
A Igreja não ilude ninguém, não mente e nem encobre essa triste situação.
A Igreja reconhece que alguns casamentos nunca existiram, e foram apenas aparentes e
inválidos apesar das lindas cerimônias, da festa e dos muitos convidados.
Matrimônio aparente é aquele que parece ter sido casamento, mas nunca existiu.
Há várias causas que impedem o nascimento de alguns casamentos.
Muitos católicos quase não estudam a Bíblia e nem a doutrina da Igreja. Com isso vivem
na ignorância religiosa.
Este texto pretende ajudar e jogar um facho de luz sobre a nulidade matrimonial.
A Igreja tem Tribunais Eclesiásticos para socorrer as vítimas de casamentos nulos.
A Igreja é fiel à Bíblia e a Jesus. Ela jamais admitiu e nem admitirá o divórcio.
Nenhuma Igreja cristã, católica ou evangélica, pode aceitar o divórcio.
A Igreja jamais anula um matrimônio. Ela só declara nulo um casamento inválido, um
casamento aparente.
Casamento válido é indissolúvel e só a morte o pode dissolver – c. 1141.
A Igreja, através de diligente Processo, pode declarar nulo um casamento aparente, um
casamento que nunca existiu, apesar das belas aparências.
Este texto pretende esclarecer os fiéis sobre as causas de nulidade. Quer também ajudar
os fiéis a fazer seu Pedido, e saber como funciona o Processo de Nulidade.
No início do texto são apresentadas algumas noções básicas do matrimônio, isto é, seus
elementos e suas propriedades essenciais.
Apresenta também algumas informações úteis sobre os Tribunais Eclesiásticos.
De seguida ajuda o fiel a fazer o seu Pedido, que também se chama de Libelo.

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INFORMAÇÕES GERAIS:

MATRIMÔNIO é um contrato típico realizado entre um homem e uma mulher para


formarem comunhão de vida e de amor, para o bem dos cônjuges e para a geração e
educação dos filhos – c. 1055.
Sua primeira finalidade é a comunhão de vida, a ajuda mútua, o bem e a felicidade do
casal. A segunda finalidade é a geração e a educação dos filhos.
O matrimônio tem duas propriedades essenciais: a unidade e a indissolubilidade.
Unidade significa que ninguém pode ter dois ou mais cônjuges, nem ter amantes, nem
divorciar-se para casar com outrem. Separar-se e casar com outrem, quebra a unidade e,
por isso, o novo casamento é inválido.
Indissolubilidade significa que o casamento não pode ser dissolvido nunca, por ninguém
a não ser pela morte de um dos cônjuges – c. 1141.
Muitas nações aprovaram o divórcio. Para os cristãos, o divórcio não tem valor, é como
se não existisse, pois ele não dissolve o casamento dos católicos, nem dos evangélicos e
nem de ninguém. O divórcio é contra a vontade de Deus. A Igreja o tolera só para fazer
valer os direitos civis, mas nunca como dissolução do vínculo.
O cristão fiel a Deus não pode nem sonhar com divórcio.
Se alguém casa disposto a se divorciar um dia, seu matrimônio é inválido e nem chega a
nascer, porque exclui a indissolubilidade, que é essencial para o matrimônio.
A Bíblia fala da impossibilidade do divórcio desde a criação da pessoa humana. Jesus foi
radical em não admitir o divórcio porque é contra o plano de Deus.
O divórcio causa danos enormes ao casal e aos filhos. 90% de todos os crimes cometidos
por crianças, adolescentes e jovens provêm de filhos de divorciados, separados ou
gravemente desajustados. O divórcio causa imensos males e é fonte de infelicidade.

NULIDADES: Há mais de 20 causas de nulidade matrimonial. Quando uma delas atinge


um casamento, ele automaticamente é nulo. Há três (3) tipos de nulidades:
impedimentos, vícios de consentimento e defeitos de forma.
Impedimentos são leis divinas, leis naturais ou leis da Igreja que regulam o casamento.
Quando alguém casa violando uma delas, o casamento é inválido.
Vícios de consentimento – São falhas na mente que anulam o casamento como: casar
bêbado, drogado, contra sua vontade, disposto a divorciar-se ou sem querer fiel.
Defeitos de forma – Para um casamento ser válido é necessário seguir o ritual da Igreja,
dizer aquelas palavras, naquele lugar, que o ministro tenha o poder de assistir aquele
casamento. Não é qualquer um que pode 'fazer' um casamento, como não é qualquer um
que pode fazer uma escritura válida ou assinar validamente um cheque.

TRIBUNAIS: Há três tipos de Tribunais: 1ª Instância, 2ª Instância e Rota Romana.

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Como obter a declaração de nulidade
de um matrimônio aparente.

Tribunal de 1ª Instância é aquele que recebe o libelo, inicia o Processo, recolhe as provas
e profere a 1ª sentença. Podem ser: diocesanos, Interdiocesano ou regionais.
Tribunal de 2ª Instância é aquele que reexamina o processo da 1ª Instância e profere nova
sentença de 2ª Instância.
No Pará e Amapá, este Tribunal se chama Tribunal Metropolitano de Apelação.
Se as sentenças da 1ª e da 2ª Instância forem iguais, o Processo acaba. Mas se as
sentenças foram discordes, a parte interessada pode recorrer ao Tribunal da Rota
Romana.
Tribunal da Rota Romana – A parte interessada pode recorrer, mas deve arcar com todas
as despesas. É o Tribunal sob o comando direto do papa.

COMPOSIÇÃO – O Tribunal de 1ª instância é formado por cinco (5) pessoas muito


competentes: três (3) juízes, um Defensor do Vínculo matrimonial e um Notário.
A Igreja exige que os juízes e o Defensor do Vínculo sejam mestres ou doutores em
Direito Canônico, serem pessoas muito honestas, serem aprovadas pelo Bispo e pelo
papa, pois julgam em nome da Igreja católica.
O Tribunal da 2ª tem a mesma composição que o da 1ª Instância.
A Rota Romana é composta desse mesmo jeito, mas pode ter até onze (11) juízes.

CUSTAS PROCESSUAIS: Vimos quanto trabalho há para cada Processo, pois nele
trabalham pelo menos de dez (10) pessoas especializadas.
Assim, todo processo de nulidade matrimonial tem seus custos que devem ser pagos por
aqueles que buscam esse serviço: honorários e despesas de expediente.
Em Belém cada processo, com todas as economias possíveis, custa quase 3 salários
mínimos. Mesmo assim, se cobra menos dos que têm dificuldades para pagar.
O pagamento pode ser parcelado conforme for combinado com o tesoureiro.
Os Tribunais do Rio e de São Paulo, cobram de cinco a dez (5-10) salários.
Algumas paróquias ajudam seus fiéis pobres a pagar parte das custas processuais.
Sem pagamento de custas é impossível um Tribunal Eclesiástico sobreviver.
Nossos juízes ganham pouco. Ganham 30 a 40 vezes menos que um juiz do Estado.

TRIBUNAL COMPETENTE: Não é qualquer Tribunal que tem a autoridade para iniciar
e concluir um Processo. O c. 1673 diz que o Tribunal competente é nessa ordem:
·- O Tribunal da diocese ou da Região onde se realizou o casamento.
·- O Tribunal onde reside a parte demandada.
·- O Tribunal onde se encontra a maioria das testemunhas, mas só se o Presidente daquele
tribunal autorizar depois de ter ouvido a parte demandada.
Assim, quem reside em Belém, casou em Fortaleza e sua esposa mora no Rio, só tem
direito a dar entrada com o processo em Fortaleza ou no Rio, e não em Belém.

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DURAÇÃO DO PROCESSO: A Igreja quer que os processos sejam sérios, mas rápidos.
Ela estabelece o prazo máximo de um (1) ano na 1ª Instância, e de meio ano na 2ª
Instância (c. 1453).
Em Belém, um processo é concluído nas duas instância em meio ano e até menos.

O NASCIMENTO DO MATRIMÔNIO.

O c. 1057 diz: “O matrimônio é produzido pelo consentimento legitimamente


manifestado entre pessoas hábeis perante duas testemunhas. O consentimento não pode
ser suprido por nenhum poder humano”.
Para um casamento ser válido é preciso que a pessoa queira casar e esteja livre. Sem
verdadeira liberdade, o casamento é nulo.
Quando alguém é coagido a casar, mesmo que diga sim, o casamento é nulo.
Nem pai, nem juiz, nem padre e nem ninguém pode consentir pelo nubente.
Se ameaçar, coagir ou forçar, o casamento será nulo.
'Legitimamente' significa 'segundo a lei'. O consentimento deve ser manifestado
segundo a lei. O Ritual da Igreja deve ser observado. Se o consentimento é manifestado
de outro modo, do jeito das novelas, não vale. Violou a lei, o casamento é inválido.
'Pessoas hábeis' significa pessoas que tenham a capacidade para o matrimônio.
Uma criança é incapaz de assumir o matrimônio. Portanto, não é hábil. Um louco
também não é hábil. Um tarado também não. Quem é incapaz de cumprir as obrigações
essenciais do matrimônio por algum motivo, é incapaz de contrair um casamento válido.
Duas testemunhas – A lei exige duas testemunhas para atestar que houve o casamento.
Alguns as chamam de 'padrinhos', mas não são. Elas só são testemunhas.
Para ser testemunha basta que a pessoa seja capaz de atestar que o casamento realmente
aconteceu. Testemunha pode ser um pagão ou até uma criança inteligente.
Impedimentos – As causas que provocam a nulidade de um matrimônio são: 12
impedimentos, 9 vícios de consentimento e um (1) defeito de forma.
Os impedimentos são leis de Deus, da natureza ou da Igreja.
O Bispo pode dispensar das leis da Igreja não expressamente reservadas ao Papa – c.
1078. Exemplo de impedimentos: casamento entre primos, casamento de menores.
O Bispo pode dispensar, mas só quando há uma causa justa e grave – cc. 87 a 90.
A seguir apresentaremos resumidamente cada um dos impedimentos dirimentes.

Lembre sempre isto:


A Igreja nunca anula um casamento. Ela só pode declarar nulo um casamento aparente,
que nunca existiu, apesar das lindas aparências. Jesus disse: “O que Deus uniu o homem
não separe”. Mas o que Deus não uniu, a Igreja pode separar.

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Como obter a declaração de nulidade
de um matrimônio aparente.

PRESUNÇÃO DE VÁLIDADE:
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O c. 1060 diz: “O matrimônio goza do favor da lei. Portanto, em caso de dúvidas, deve-se
estar pela validade do matrimônio até que não se prove o contrário”.
Isto significa que os matrimônios são considerados todos e sempre válidos, mesmo que
haja probabilidade de serem nulos.
Só os Tribunais da Igreja, com diligente Processo, por sentença definitiva proferida por
juízes competentes, julgam em nome da Igreja se um matrimônio é nulo ou válido.
O julgamento em causa própria não tem nenhum valor. É mera opinião sem valor.
Por isso, o Processo é necessário e indispensável para reconhecer a nulidade.

OS 12 IMPEDIMENTOS:

Impedimentos são leis que impedem o surgimento de um matrimônio válido.


Vejamos quais são eles e os cânones que os determinam:

Idade – 'O homem antes dos 16 e a mulher antes dos 14 anos completos não podem
contrair matrimônio válido' - c. 1083.
Presume-se que com 16 e 14 anos, o rapaz e a moça já tenham capacidade de entender o
que é o matrimônio, e também que sejam capazes de assumi-lo na prática.
Esta é a presunção, mas admite prova em contrário. Se for provado que eles não tinham a
maturidade suficiente para assumir o matrimônio, pode ser declarado nulo.
Todos sabem que a maturidade de dois garotos tão novos não é a mesma de pessoas
adultas, pois a maturidade vai crescendo com a idade. Mas é suficiente a maturidade
normal desta idade para que o casamento seja válido. Não precisa grande maturidade.
A CNBB no Brasil acatou a legislação civil brasileira que exige a idade de 16 anos para a
moça e 18 para o rapaz. A CNBB pede aos padres para dissuadir os adolescentes de
casarem antes dos 16 e 18 anos. Mas se há motivos justos e os dois têm suficiente
maturidade, a Igreja autoriza o matrimônio com 14 e 16 anos e até menos – c. 1072.
'Presumir' significa acreditar que eles tenham a devida maturidade. Mas se depois for
provado que eles não a tinham, o casamento poderá ser declarado nulo.
Por falar em maturidade, há pessoas com idade bem maior que não têm a maturidade
necessária para assumir os deveres matrimoniais. Tais casamentos são nulos.
É imaturo o rapaz que age como se fosse solteiro: namora outras mulheres, volta tarde da
noite sem justo motivo, não compartilha a vida com a esposa, não se preocupa de
sustentar a casa e os filhos.
O mesmo diga-se da mulher que não assume as atitudes normais de mulher casada.

Impotência – 'A impotência para realizar o ato conjugal, antecedente e real, tanto no
homem como na mulher, torna inválido o matrimônio' – c. 1083.

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Impotência é a incapacidade para realizar o ato conjugal completo e natural. Pode provir
de causas físicas ou psíquicas.
O ato sexual não é tudo. Mas a impotência sexual torna inválido o matrimônio.
Se, porém, a impotência vier depois do casamento, não o invalida, pois casamento válido
é indissolúvel, e nada o pode dissolver a não ser a morte – c. 1141.
Às vezes há pessoas que sofrem um acidente e se tornam paraplégicas, paralíticas e
impotentes de realizar o ato conjugal. Nesses casos o casamento continua válido.
Geralmente a medicina resolve com tratamento ou pequena cirurgia os casos de
impotência. Mas se não tem jeito de resolver, o casamento pode ser declarado nulo.
A Impotência pode ser absoluta ou relativa. É absoluta quando a pessoa é incapaz de
realizar o ato sexual com qualquer pessoa do outro sexo. É relativa se a incapacidade é só
com determinada pessoa. Em ambos os casos, o matrimônio é nulo.
A impotência provinda da velhice não invalida o matrimônio, pois ela é natural. Mesmo
impotente, um idoso pode contrair casamento válido.

Vínculo matrimonial – 'Tenta invalidamente o matrimônio quem já está ligado por


vínculo matrimonial anterior' – c. 1085.
Quem já está casado na Igreja, se casar de novo com outra, seu casamento é nulo.
Alguém pode mentir e enganar até o padre, mas a Deus ninguém engana.
O vínculo matrimonial só se dissolve pela morte de um dos cônjuges, ou por sentença de
Declaração de Nulidade matrimonial dada pelos Tribunais Eclesiásticos.
O divórcio civil não dissolve nenhum matrimônio. O divorciado que casa ou se une com
outrem comete adultério. Para a Bíblia o adultério é pecado muito grave.

Disparidade de culto – 'É inválido o matrimônio realizado entre duas pessoas, uma das
quais foi batizada na Igreja católica e outra pessoa não batizada' – c. 1086.
Assim, é inválido o matrimônio entre um católico e outro não batizado, como: judeu,
muçulmano, budista, espírita, testemunha de Jeová...
Não é inválido, porém, se casou com pessoa batizada em alguma Igreja cristã, como:
luterana, pentecostal, presbiteral, assembléia de Deus, etc.
Para casar com pessoa batizada em outra Igreja cristã precisa ter licença do Bispo. Por
quê? Porque a religião tem peso enorme na comunhão de vida e de amor do casal.
A diferença de religião muitas vezes causa desastres na vida do casal e na educação dos
filhos. Certas igrejas, mesmo cristãs, combatem a Igreja católica, quebram estátuas,
destroem imagens, ofendem a mãe de Jesus, desprezam seus valores e princípios. Nesses
casos, a família, em vez tornar-se um ninho de amor, de respeito e de paz, pode tornar-se
um purgatório e até um inferno.
Há, porém, pessoas equilibradas que respeitam plenamente a religião do outro e vivem o
verdadeiro ecumenismo.
Matrimônio de católico com pessoa não batizada é inválido.

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Nulidade Matrimonial
Como obter a declaração de nulidade
de um matrimônio aparente.

Matrimônio de católico com pessoa evangélica é desaconselhável, exige licença do


bispo, mas é válido. A licença é para que os casais tomem consciência dos graves riscos e
dificuldades que correm e sejam preparados para supera-los eficazmente.

Ordem sagrada – 'Tentam invalidamente o matrimônio quem recebeu a Ordem sagrada' –


c. 1087. A Ordem sagrada é o diaconato, o presbiterado e o episcopado.

Voto de castidade – 'Tenta invalidamente o matrimônio quem está ligado por voto público
perpétuo de castidade num Instituto religioso' – c. 1088.
É o caso de religiosos e de freiras com votos públicos e perpétuos de castidade.
O voto particular não causa a nulidade do matrimônio, mas o torna ilícito.
O voto público temporário também não anula o casamento, mas o torna ilícito.
Só o voto perpétuo e público de castidade invalida o matrimônio.
A promessa de castidade não anula o matrimônio, mas o torna ilícito.

Rapto – 'Se uma mulher for raptada para fins de casamento, o matrimônio é inválido' –
1089.
Raptada significa seqüestrada. Parece absurdo, mas no mundo ainda acontece.
Não é nada de rapto se os dois se combinam, fogem e depois casam.
Assassinato de cônjuge – 'Quem, com o intuito de casar com certa pessoa, matar o
cônjuge dela, ou o próprio cônjuge, contrai invalidamente' – c. 1090.
Se alguém o matou, mas sem intenção de casar-se com o sobrevivente, se depois contrair
matrimônio, ele é válido. Por exemplo, se foi numa briga.
Se, porém, os dois colaboraram para matar o cônjuge de um deles, mesmo sem pensar em
casar-se entre si depois, se depois casaram, este casamento é inválido.
Matar o próprio cônjuge ou o cônjuge do outro é um fato tão grave que só o papa pode
dispensar deste impedimento, e quase nunca dispensa.

Parentesco de consangüíneos – 'Na linha reta de consangüinidade, é nulo o matrimônio


de ascendente com descendente, tanto legítimos como naturais. É nulo na linha colateral
até o 4° grau' – c. 1091.
Linha reta significa casamento de pais com filhos ou netos. É sempre inválido.
Linha colateral: casamento de irmãos ou de primos, até o 4° grau, é sempre nulo.
No Direito Canônico os graus não se contam como no direito civil e nem como o povo
conta. A contagem dos graus se rege pelo c. 108 que diz: “Tantos são os graus quantas são
as pessoas, omitido o tronco”. Tronco significa os pais. Então é assim:
·- Filha e pai = 1° grau.
·- Irmão e irmã = 2° grau.
·- Tia e sobrinho = 3° grau.
·- Primos filhos de irmãos = 4° grau.

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Afinidade – 'Na linha reta torna nulo o matrimônio em qualquer grau' – c. 1092.
Afinidade é o parentesco originado de um casamento válido. Por exemplo: entre o
padrasto e a filha de sua esposa, mas que não é sua filha. O mesmo vale para a madrasta.
Se o viúvo (padrasto) casar com uma filha da esposa, este casamento é inválido.
Igualmente se a viúva (madrasta) casar com um filho do marido falecido.
Também é nulo se ele casar com a mãe da viúva, e vice-versa.

Pública honestidade – Ela se origina de um casamento inválido, como de um


amaziamento ou concubinato. O c. 1093 diz: “O impedimento de pública honestidade
torna nulo o matrimônio no 1° grau da linha reta entre o homem e os consangüíneos da
mulher e vice-versa”. As regras são as mesmas da afinidade que vimos acima.
Se o viúvo casar com a mãe ou a filha da falecida esposa, o casamento é inválido.

Parentesco legal (adoção) – 'Na linha reta e no 2° grau da linha colateral provinda de
adoção, o matrimônio é inválido” – c. 1094.
É inválido o matrimônio contraído entre pai e filha adotiva, e vice-versa..
É inválido também casamento entre irmã e irmão adotivos.
Esse impedimento não existe entre filhos de criação, pois não há parentesco legal.

ATENÇÃO: Por justa causa, o bispo (papa) pode dispensar de impedimentos. Por isso,
antes de declarar nulo um casamento, o juiz vai ver se houve dispensa.
O pedido de dispensa pode ter sido feito pelo padre, pais ou por um dos nubentes.

OS 9 VÍCIOS DE CONSENTIMENTO:

O matrimônio só é válido se for realizado pelo consentimento livre e eficaz.


O consentimento só é verdadeiro se provém de um ato livre, consciente, deliberado,
manifestado e aceito por uma autoridade em nome da Igreja.
É inválido o casamento realizado sem o uso da razão, ou sem vontade de casar ou sem
liberdade, ou sem a capacidade de assumir e cumprir os deveres matrimoniais.
Assim, é inválido o casamento realizado quando a pessoa estava bêbada, drogada,
adormecida, hipnotizada, forçada, coagida ou enganada.
Também não vale quando a pessoa contrai casamento sob efeito de grave neurose,
psicose, violência, medo, forte pressão psicológica.
Em outras palavras, o casamento só é válido quando a pessoa realiza um verdadeiro ato
humano, um ato livre de qualquer condicionamento que lhe deteriore a liberdade.
O CDC apresenta nove (9) vícios de consentimento. São estes:
Falta do uso da razão – “São incapazes de contrair matrimônio válido os que não têm
suficiente uso da razão” – c. 1095, § 1.
As crianças, os retardados mentais, os dementes, os bêbados, os drogados, os

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Nulidade Matrimonial
Como obter a declaração de nulidade
de um matrimônio aparente.

hipnotizados, os que se encontram sob o efeito de fortes sedativos, de forte comoção, ou


logo após um ataque epiléptico, os atingidos por graves psicoses ou neuroses, são
incapazes de realizar um verdadeiro ato humano, e por isso são incapazes de consentir.

Falta de discrição de juízo – 'São incapazes de contrair matrimônio os que têm grave falta
de discrição de juízo a respeito dos direitos e deveres essenciais do matrimônio' – c. 1095,
§ 2.
A falta de discrição de juízo é chamada também 'falta de maturidade psicológica' ou 'falta
de discernimento' para pesar a gravidade dos direitos e deveres matrimoniais.
Não se trata de conhecimento teórico, mas prático, na vida real do dia a dia.
Então, isso pode acontecer também em pessoas muito estudadas.
O conhecimento prático é aquele que move a vontade e faz a pessoa agir certo.
Quem tem falta de discrição (discernimento) pensa de estar agindo certo, mas faz muita
besteira imprópria de uma pessoa casada.
Vejamos alguns exemplos para entender melhor:
a-) Uma mulher casada sai sozinha por ali, fica paquerando, namorando, dança com
amigos como se fosse solteira. Ela acha que não há nada de mal ou que tem direito.
b-) Um homem fica fora se divertindo de noite, sai com amigos, deixando a esposa ou um
filho doente em casa, sem o necessário e acha que não há nada de mal.
c-) Um homem acha que é dono da mulher e a trata como se fosse sua empregada.
d-) A mãe não se importa de cuidar e alimentar bem o filho, não se preocupa com as
vacinas, e pensa que não há nada de mal.
e-) Mulher com excesso de dependência da mãe, homem com idéias delirantes e fora da
realidade, pessoa demais inconstante e incapaz de tomar decisões por si mesma.
f-) Marido demais agressivo, dominador, desrespeitoso, incapaz de dialogar.
Quando alguém corrige essas pessoas, às vezes elas se ofendem, outras vezes entendem e
querer mudar de vida e até prometem, mas depois não conseguem.
Não é má vontade, mas falta de discernimento. Não conseguem discernir, na prática do
dia a dia, quais são seus deveres, ou não tem a vontade para cumpri-los.
É a isto que se chama falta de discrição de juízo ou grave imaturidade psicológica.
É natural que a discrição de juízo cresça com a idade. É natural que a discrição de juízo
de um adolescente seja menor que a de um adulto.
Mas se a imaturidade é tão grande que o cônjuge não consegue reconhecer e assumir os
deveres essenciais do matrimônio, o casamento é nulo.
A falta de educação, equilíbrio e de preparação ajudam muito para a imaturidade.
Há pessoas, mesmo com boa idade, que não conseguem discernir na prática do dia a dia
quais são seus direitos e deveres. Digo: na prática e não na teoria.
Se a imaturidade é normal para a sua idade, não incapacita a pessoa. Mas se ela é grave,
incapacita a pessoa para o casamento, embora no futuro possa até desaparecer.
Não se exige uma discrição perfeita, mas a comum dos mortais normais.

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Pe. Antônio Mattiuz

A falta de discrição de juízo é hoje a maior causa de nulidade matrimonial. Incapacidade


de assumir as obrigações matrimoniais por causas psíquicas.
'São incapazes de contrair matrimônio válido os que são incapazes de assumir as
obrigações essenciais do matrimônio por causas de natureza psíquica' - c. 1095, § 3.
Há pessoas que querem cumprir as obrigações matrimoniais, mas não conseguem mesmo
querendo. Nesse caso o matrimônio é inválido.
As obrigações essenciais do matrimônio são as previstas nos cc. 1055 e 1056.
As do c. 1055 são três (3): formar boa comunhão de vida e de amor entre marido e mulher,
promover o bem dos cônjuges, promover o bem e a educação dos filhos.
As descritas no c. 1056 são duas (2): a fidelidade e a indissolubilidade.
Se alguém for incapaz de cumprir uma dessas obrigações, o matrimônio é nulo.
Incapacidade não significa dificuldade. Incapacidade é não conseguir, mesmo que
queira. Para muitos é difícil, mas possível. Para outros é impossível mesmo.
Há pessoas incapaz de formar comunhão de vida e de amor com o cônjuge porque não são
capazes de dialogar, de perdoar, de compreender, de controlar-se.
Quem não é capaz de formar boa convivência com o cônjuge, é incapaz de contrair
matrimônio válido.
Se o homem é incapaz de dar tranqüilidade e alegria à esposa por ser demais violento,
irascível, intratável, ou sem diálogo, descontrolado, maníaco, ou irresponsável, ele é
incapaz de contrair um matrimônio válido. O mesmo vale também para a mulher.
Há várias causas psíquicas que tornam a pessoa incapaz de assumir o matrimônio:
- Ninfomania: a mulher se sente irresistivelmente arrastada a praticar sexo com qualquer
homem, e nunca se satisfaz. Por isto lhe é impossível ser fiel.
- Satiríase: quando a mesma patologia descrita acima está no homem.
- Homossexualismo: quando o homem se sente fortemente atraído a praticar sexo com
um parceiro do mesmo sexo. Ele é incapaz de ser fiel.
- Lesbianismo: Quando o mesmo problema acima está na mulher.
- Pedofilia: quando a pessoa tem forte tendência de praticar sexo com crianças.
Facilmente irá violentar crianças e até seus próprios filhos ou filhas.
- Sadismo: a pessoa só se satisfaz sexualmente quando faz sofrer o parceiro.
- Dependência de drogas: A pessoa é escrava de drogas e incapaz de assumir as
obrigações matrimoniais. O álcool também é uma droga desastrosa.
- Ludopatia: é uma atração irresistível para o jogo de azar, incapaz de abster-se.
- Agressividade patológica grave: A pessoa é intratável, exageradamente nervosa e
incapaz de formar comunhão de vida e de amor com o cônjuge ou com filhos.
- Psicoses graves como esquizofrenia, paranóia, maníaco-depressiva. Elas fazem com
que o doente viva fora da realidade e crie um mundo irreal de fantasias, e por isso seja
incapaz de formar comunhão de vida e de amor.
- Outras causas que impeçam a pessoa de formar boa comunhão de vida.

16
Nulidade Matrimonial
Como obter a declaração de nulidade
de um matrimônio aparente.

Essas causas são psíquicas porque atingem a mente da pessoa no seu agir do dia a dia.
Elas podem provir de causas biológicas, físicas, educacionais e até sociais.
As drogas e o álcool danificam gravemente o cérebro da pessoa, e a transtornam de tal
maneira que a incapacitam de assumir os deveres essenciais do matrimônio.
A mídia, hoje exalta muito o homossexualismo, mas ele não é natural. O natural é
homem ser homem e mulher ser mulher e agirem como tais. Não se trata de livre opção
sexual. Se assim fosse, porque então punir os que optam pela pedofilia?
É preciso respeitar os homossexuais, mas nunca aprovar suas práticas não naturais.

Atenção: Para uma causa psíquica invalidar um matrimônio, precisa existir antes do
casamento, pelo menos no seu início, em miniatura.

Se a pessoa já consumia álcool ou a usava algum tipo de drogas antes do casamento, e só


depois de casada apareceu a dependência, o matrimônio é nulo, pois todo vício tende a
crescer cada vez mais até tornar-se gigante. É assim que acontece com a mudinha de
castanheira ou de cedro que crescem até se tornarem grandes árvores.
Se uma patologia, porém, só surgiu depois de casados, não anula o matrimônio.
As doenças psíquicas, porém, raras vezes surgem da noite para o dia.

Ignorância – 'Para contrair validamente basta que os nubentes não ignorem que o
matrimônio é um consórcio permanente entre homem e mulher, ordenado à procriação
por meio de alguma cooperação sexual' – c. 1096.
'Consórcio' significa compartilhar a mesma sorte e a mesma vida, ter vida comum.
Hoje é extremamente difícil que um casamento seja nulo por ignorância.
Os conhecimentos exigidos pelo Direito são mínimos. Não exige conhecimentos
profundos sobre os direitos e deveres, nem sobre a unidade e indissolubilidade, nem
como acontece a relação sexual e nem como se educam os filhos. Basta saber só isto: que
se trata da união de um homem e de uma mulher, que nessa união pode haver relações
sexuais e que delas podem nascer filhos.
É grave obrigação dos pais, dos catequistas, dos padres e das escolas informarem as
crianças e adolescentes e prepara-las para o casamento – cc. 1063 a 1067.
Erro de pessoa – 'O erro de pessoa torna inválido o matrimônio' – c. 1097, § 1.
Erro é um grave engano. Pensou que fosse um tipo de pessoa, mas é outra.
Pensou casar-se com um príncipe e casou com um traficante de drogas, um bandido e
assassino que está sendo procurado pela polícia.
Anos atrás, por pessoa, se entendia apenas a pessoa física. Hoje o conceito de pessoa é
mais amplo: é a totalidade do ser no aspecto: moral, social, cultural e religioso.
Pessoa é o conjunto de todo seu ser, seu pensar, agir e de suas qualidades e vícios.
Infelizmente há muitas pessoas que namoram só com o coração, sem inteligência, sem
prudência e sem bom senso. Muitos ficam cegos e surdos. Não enxergam os defeitos que

17
Pe. Antônio Mattiuz

todo mundo vê. São totalmente surdos aos conselhos dos pais e de amigos que tentam
ajudar. Vivem numa grande ilusão criada pela paixão.
Muitos pensam que paixão é amor. Se for amor, é um amor cego, doente e ilusório.
A paixão dura pouco, no máximo dois anos e desaparece. Então os olhos se abrem e
vêem o que todo mundo já via antes: a pessoa não era nada do que parecia ser.
É normal que no namoro, alguém se apresente da melhor maneira possível: gentil,
amoroso, leal, trabalhador, respeitoso, compreensivo e capaz de dialogar. É preciso abrir
bem os olhos e ver como ele é, e se dá para viver com ele por toda a vida.
Às vezes alguém entra numa fria tremenda. Achava a pessoa era séria, honesta, correta,
fiel, bondosa, trabalhadora, responsável, boa cristã. Depois de casados a máscara cai e a
pessoa se revela como de fato é: demais egoísta, orgulhosa, desonesta, infiel, injusta,
violenta. Se a tivesse conhecido assim como revelou ser depois, jamais teria casado com
ela porque não é nada do que parecia ser.
A isto se chama grave de erro de pessoa. Erro pequeno não invalida o matrimônio. Mas
se o erro foi muito grande, o matrimônio é inválido, porque o consentimento não era para
casar com pessoa assim. Então o consentimento foi viciado, e o matrimônio é nulo.

Vejamos três exemplos de erro de pessoa.


+ No namoro Edson parecia ser correto, honesto, trabalhador, católico praticante.
Depois de casados ele revelou ser injusto, ladrão, infiel, vadio e sem religião.
+ No namoro Ari se apresentou como bom rapaz. Dois meses após o casamento ele
desapareceu de casa. Maria procurou por tudo e pediu ajuda à polícia. Ari estava preso,
pois tinha um mandado de prisão por latrocínio: assaltou e matou uma pessoa.
+ No namoro Joana se apresentava como boa cristã, mas depois do casamento ela revelou
ser mãe de santo e líder de macumba.

Erro de qualidade diretamente visada – 'O erro de qualidade não invalida o matrimônio,
exceto se ela foi direta e principalmente visada'– c. 1097, § 2.
Errar um pouco é normal, pois na época do namoro a pessoa se enfeita, embeleza e
capricha. Assim fazem também nas lojas e nas feiras: dão a melhor apresentação
possível ao produto para seduzir o cliente e poder vender. O mesmo acontece no namoro.
O rapaz pode aparecer como o melhor do mundo, e a moça como uma maravilha.
Isto é natural, pois até os pássaros, animais e bichos se embelezam para se acasalar.
Qualidade direta e principalmente visada é a qualidade, sem a qual, a pessoa não casaria.
Se errar, tal qualidade invalida o matrimônio, pois engana o consentimento.
Não dá para fazer uma lista dessas qualidades. Para um é uma e para outro é outra.
O erro de qualidade direta e principalmente visada vicia o consentimento. A pessoa
casou com alguém com quem não queria casar. O casamento é nulo.
Ela considerava a qualidade até mais importante do que a própria pessoa. De fato, sem tal
qualidade a pessoa nem parece ser aquela com quem queria casar.

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Nulidade Matrimonial
Como obter a declaração de nulidade
de um matrimônio aparente.

Por qualidade se entende tanto as boas como as más qualidades. Vejamos alguns
exemplos:
- O rapaz sempre sonhou casar-se com uma mulher virgem. Depois de casado constata
que ela não é virgem. Ele errou numa qualidade diretamente visada.
- Jaqueline só queria casar-se com um homem que fosse econômico. Depois de casada
descobre que ele é um grande esbanjador: gasta até mais do que ganha.
- Carlos só queria casar-se com uma mulher saudável. Após o casamento descobre que ela
é aidética. Errou gravemente numa qualidade visada.
- Ana jamais iria casar com um homem violento e depois de casada descobre que ele é
intratável, bronco e altamente agressivo. Ela errou na qualidade visada.
- Joana só queria casar com um católico praticante. Depois constata que ele é um ateu, ou
de uma religião que combate o catolicismo. Errou de feio.

Dolo – 'Quem contrai, enganado por dolo perpetrado para obter o consentimento, a
respeito de alguma qualidade da outra parte, e essa qualidade, por sua natureza, possa
perturbar gravemente o consócio da vida conjugal, contrai invalidamente' – c. 1098.
Dolo é a vontade deliberada de induzir em erro, isto é, de enganar.
Dolo é uma manipulação indigna da boa fé do noivo, por ato ou por omissão.
O dolo pode provir também de outros interessados como familiares e amigos.
Não é qualquer dolo que causa a nulidade, mas só aquele que perturba gravemente a
convivência conjugal, por falta de confiança, por indignação e coisa parecida.
Não precisa ser uma qualidade direta e principalmente visada. Basta que aquela
qualidade perturbe gravemente a convivência matrimonial.
Que qualidades são essas? – Depende de pessoa a pessoa. Não há uma lista pronta.
Pode ser a esterilidade, a perda da virgindade, uma doença contagiosa, um crime, uma
condenação penal, um filho fora do matrimônio, um concubinato anterior, etc.
O dolo só é dolo se teve a finalidade conseguir casar, sem esse engano o casamento teria
acontecido. Ele engana para conseguir casar-se.
Exemplo: o homem sabia que era estéril, sabia do grande desejo da mulher ser mãe, mas
esconde dela a sua esterilidade, pois sabe que ela não casaria com ele. Há dolo.
Mas se a mulher nem se importou? O dolo existiu, mas não anulou o matrimônio.
Se a esterilidade perturbar gravemente a convivência matrimonial, o dolo anula o
casamento. Se não perturbou gravemente, não anula nada.
Todo o dolo é um ato vil e covarde, mas não basta. Para invalidar o matrimônio é preciso
que ele perturbe gravemente a convivência do casal.
O dolo pode ser positivo ou negativo. É positivo quando mente; é negativo quando
esconder a verdade para conseguir casar-se. Vejamos alguns exemplos para entender
melhor:
- João esconde a sua religião, pensando que se Maria souber, não casará com ele.
- Joana esconde uma doença julgando que se Ary souber não casaria com ela.

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Pe. Antônio Mattiuz

- Pedro esconde que cometeu um crime, pois acha que Isabel não casaria com ele se
soubesse da verdade.
- Pedro não fala que teve um filho com outra mulher, pensando que Lúcia não casaria com
ele se soubesse.
- Júlio esconde que é portador de AIDs, pois pensa que Ana não casaria com ele.
- Marta está grávida de outro, mas diz que é do noivo, senão ele a deixaria.

Simulação – 'Se uma das partes, por ato positivo de vontade, excluir o matrimônio, ou
algum elemento, ou alguma propriedade dele, contrai invalidamente' – c. 1101.
Simulação é a discordância entre o ato da vontade interna com as palavras ou atos
externos. Diz uma coisa e quer outra. Por fora diz sim, mas por dentro diz não.
Quem simula, engana os outros e, alguma vez, até a si mesmo.
A simulação é total quando a pessoa exclui o matrimônio: “eu não quero casar”.
A simulação é parcial quando a pessoa quer casar, mas exclui um elemento ou uma
propriedade essencial do casamento (cc. 1055 e 1056). Por exemplo: a pessoa casa, mas
não pretende ser fiel. Casa, mas não por toda a vida. Casa, mas não quer formar
comunhão de vida. Casa, mas não quer ter filhos ou não assume o dever de educa-los.
Os elementos e as propriedades do matrimônio estão nos cânones 1055 e 1056.
Por 'ato positivo de vontade' se entende querer mesmo, ter uma decisão real.

Para entender melhor, vejamos alguns exemplos:


- Lourdes não quer casar, mas a família exige que case e prepara tudo. Na Igreja o padre
pergunta se ela quer casar. Por palavras ou por gestos ela diz sim, mas dentro de si ela diz
'não quero'. É simulação total.
- Mário tem uma amante. O padre pergunta: “Prometes amor e fidelidade a Joana por
toda a vida?” Ele responde sim, mas por dentro ele não está decidido a deixar sua amante.
É simulação parcial.
- Pedro casa com a decisão de não ter filhos com a esposa. É simulação parcial
- Casa para ficar com o cônjuge até que der certo. É simulação parcial.

Condição – 'Não se pode contrair matrimônio válido sob condição de futuro. Se a


condição for do passado ou do presente, o matrimônio será válido ou inválido conforme
exista ou não aquela condição' – c. 1102.
A pessoa pode ter sérias dúvidas, mas não consegue resolve-las. Então põe uma
condição como esta: “Eu quero casar contigo, mas só se...”.
A condição de futuro torna sempre inválido o casamento e nem o deixa nascer.
Por exemplo: “Quero casar contigo só se um dia te formares em medicina”.
Na condição, o interessado só vem a saber da verdade depois do casamento.
A condição deve ser real, uma verdadeira decisão, e não só: 'eu pensei'.
O problema é provar que realmente foi posta a condição: se falou para alguém.

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Nulidade Matrimonial
Como obter a declaração de nulidade
de um matrimônio aparente.

O c. 1102 diz que precisa ter autorização do bispo para pôr uma condição. Mas isto é só
para liceidade e não para a validade. Se a pessoa nem sabia disto, ou se tinha vergonha de
pedir ao bispo, mesmo assim o casamento é nulo.

Vejamos alguns exemplos de condição de presente ou do passado:


- O rapaz tem dúvidas se a namorada é virgem. Então decide dentro de si: quero casar
contigo só se fores virgem. Se não fores virgem, nada feito. Após o casamento descobre
que ela não era virgem. O casamento é inválido.
- Franco diz que é dono de uma fazenda. Ela tem sérias dúvidas e decide no seu íntimo:
“Se fores fazendeiro aceito casar contigo”. Depois descobre que ele só tinha um pequeno
sítio. O casamento é inválido.
- Ary bebia muito. Ana tem horror de casar-se com quem bebe. Ele jura que já deixou de
beber. Ela decide: “Se tu já estás curado eu aceito casar contigo. Senão, não. Depois de
casado ele continua bebendo. O casamento foi nulo.
- O mesmo vale para viciados em jogo, em drogas, em prostituição, etc.

Coação ou medo – 'É inválido o matrimônio contraído por violência, por coação ou por
medo grave que, para se livrar deles, alguém se veja obrigado a casar' – c. 1103.
Violência é obrigar alguém a casar na força, na marra ou sob ameaças físicas.
Coação é uma imposição moral, uma pressão. Medo é o mesmo que coação.
A coação ou medo devem ser graves para tornar inválido o matrimônio. Não é qualquer
medozinho de nada. Precisa ser um medo forte que faz a pessoa sentir-se mal.
Por exemplo: o rapaz engravidou a moça, mas não quer casar com ela, porque não gosta
dela, não tolera certo jeito dela. Mas o pai lhe diz: 'Meu filho, tu fez, agora assume.
Agora tu vais casar com ela querendo ou sem querer'. O filho fica com medo do pai, medo
de ficar de mal com ele. O mesmo vale perante amigos, comunidade, parentes. Não quer
casar, mas não vê outra saída para resolver esse seu problema. Então ele se casa.
Se alguém sofreu forte coação e casou por medo, o casamento é inválido.
Medo e coação podem provir dos pais, dos patrões, do padre, do juiz, da polícia, de tios,
de pessoas influentes e até da própria sociedade que não admite não casar-se.
Se, porém, o medo é puramente imaginário, não causa a nulidade do casamento.
Exemplo: medo de Deus, do diabo, de que um raio caia sobre ele, que vai ter azar...
O medo deve ser real e grave, produzido por causa externa e antes do casamento.
Ele precisa viciar a vontade e a liberdade, a ponto de casar mesmo sem querer.
Se alguém se sente ameaçado e casa constrangido, tem seu consentimento viciado que
anula o casamento.
Ameaças, coação e medo podem vir sem palavras porque a pessoa conhece bem os
princípios dos pais, ou porque eles sempre diziam 'quem faz assume'. Agora aconteceu e
a pessoa se sente ameaçada e obrigada a assumir, mesmo que seus pais nem saibam ou
não digam uma só palavra. Este casamento é nulo, pois o consentimento estava viciado.

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Pe. Antônio Mattiuz

Ameaças, coação e medo dependem muitíssimo do tipo de pessoa. Pessoa independente,


valente e rebelde, é muito difícil casar por coação e medo. Pessoa meiga, obediente,
submissa, tímida é bem mais fácil casar-se por medo e coação.
A gravidade do medo e da coação também depende muito da idade, da maturidade, da
timidez e da sensibilidade da pessoa. Depende muito também de quem incute o medo:
pais severos, pessoa violenta, autoridade prepotente, etc.
As ameaças que provocam coação e medo nem sempre são expressas.
O medo provindo dos pais tem uma carga típica e fortíssima. O mesmo se diga de
patrões, chefes, tutores, autoridades e superiores. Chama-se 'medo reverencial'.
O medo de descontentar os pais, ou de faze-los sofrer, tem um peso muito grande.
Eis o grande sinal: se depois de casados o casal se entende e vive bem, a coação não
existiu. Se, porém, eles sentem aversão um pelo outro, facilmente houve coação.

Vamos clarear um pouco mais com alguns exemplos:


- Pedro engravidou a namorada. O pai dela é exigente, severo e até agressivo. Olha para
Pedro com severidade e fica de cara fechada sem dizer nada. Pedro fica com medo.
Embora não queria, e apesar de o pai não dizer nada, pede a moça em casamento. Ele se
sentiu coagido. Este casamento não vale.
- João namora Isabel há oito anos. Decide deixa-la. Ela se desespera e ameaça suicidar-
se. João ficou com medo e aceita casar-se para ela não se suicidar.
- Ari namora Ana há cinco anos. Os pais gostam muitíssimo dela, mas ele não a quer por
esposa. Os pais insistem muito, com carinho e delicadeza. Para não magoar os pais, Ari
aceita casar-se com Ana. Seu consentimento foi viciado.
- Joana tem sérias restrições sobre seu noivo. Os pais dela gostam muito dele e o
consideram um filho. Com perguntas freqüentes e inoportunas, eles perguntam quando
vão casar. Ela aceita casar-se, mas não era isto que queria.
- Tatiana engravida. Os pais fazem aquele escândalo e ameaçam expulsa-la de casa. Ela
não vê outra saída para resolver o problema a não ser casar-se.

E O AMOR? – 'Há grande confusão e um milhão de interpretações do amor.


Poucos têm idéias claras sobre o que é amor, embora muitos saibam amar.
O amor de mãe é exemplo de amor verdadeiro. As mães amam seus filhinhos e por isso
fazem tudo por eles. Amar é tratar o outro como as mães tratam seus filhos.
Amar é querer o bem da pessoa, mesmo se custa sacrifícios e dores. Os médicos e
dentistas amam seus clientes quando querem o seu bem, mesmo se têm que provocar dor.
Muitas pessoas de hoje nunca foram educadas para amar: poucos pais, poucas escolas e
poucos catequistas ensinam a amar de verdade.
Quem é dominado pelo egoísmo, ou orgulho, ou dominação, não ama.
Muitos fazem grande confusão: dizem que paixão é amor, que fazer sexo é amor. Mas
sexo é sexo, ciúme é desequilíbrio, paixão é amor desvairado e doente.

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Nulidade Matrimonial
Como obter a declaração de nulidade
de um matrimônio aparente.

Amar é buscar o bem das pessoas mesmo com sacrifícios.


É besteira casar sem amor. Mas a falta do amor não foi posta como causa de nulidade
matrimonial porque há muita confusão sobre esta palavra.
É inútil dizer: “Eu casei sem amor”. Isto não anula nenhum casamento.
Se as famílias, as escolas, a Igreja e os meios de comunicação social investissem mais na
educação para amar, o mundo seria mil vezes melhor.

OS DEFEITOS DE FORMA:

“Somente são válidos os matrimônios contraídos perante o Ordinário ou o pároco do


lugar; ou sacerdote ou diácono delegado por um deles como assistente, que pede e recebe
o consentimento em nome da Igreja; e perante duas testemunhas” – c. 1108.
Este cânon fala das exceções previstas nos cânones 144, 1112, 1116 e 1127.

Forma é o jeito exigido para um casamento ser válido: palavras, local e assistente.
O casamento deve ser realizado na presença do Bispo ou do pároco, ou de outro assistente
que tenha a autorização de um deles. Exigem-se também duas testemunhas.
Na verdade, os celebrantes são os noivos, e o padre só é o assistente oficial.
O assistente precisa pedir e receber o consentimento dos noivos em nome da Igreja. Se
ele não pede ou se ele não o recebe, o casamento é nulo.
Exige-se ainda que o assistente esteja dentro do seu território: território da paróquia para
o pároco, ou território da diocese para o Bispo.
Para assistir um matrimônio fora do seu território, o assistente deve ter autorização do
bispo ou do pároco. Se não tiver autorização, o casamento é inválido.
Para a validade, as palavras devem ser aquelas do Ritual e não as das novelas.
Todos os católicos estão sujeitos a essas normas.
Os evangélicos estão sujeitos às normas da sua religião ou as do direito civil.
Em perigo de morte essas normas ficam dispensadas, até mesmo da presença do
assistente eclesiástico (cc. 1112, 1116 e 1127).
As testemunhas não são padrinhos. Para ser testemunha basta que ela saiba que
aconteceu um casamento e nada mais. Por isso as testemunhas não precisam ser católicas
e nem praticantes. Podem ser até ateus ou mesmo crianças inteligentes.

Para entender melhor, vamos dar alguns exemplos:


- O padre veio de longe e assistiu o casamento de seu sobrinho. Não tinha autorização do
pároco e nem do bispo. O casamento foi inválido.
- O pároco saiu de férias e estava agendado um casamento e disse aos noivos: 'Arranjem
um padre'. O padre deixou um bilhete: “Dou a delegação para fazer este casamento ao
padre que vier”. Veio Frei Beto. Assistiu o casamento. Foi maravilhoso, mas foi
inválido. Para ser válida, a delegação deve ser dada a uma pessoal determinada e não

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Pe. Antônio Mattiuz

genérica (c. 1116).


- O casamento foi realizado sem duas testemunhas. Casamento inválido.
- O padre aceitou fazer o casamento num clube, num sítio, numa casa de recepções fora de
sua paróquia. Casamento nulo (c. 1118).
- O assistente se portou passivamente: não pediu ou não recebeu o consentimento em
nome da Igreja. Eles fizeram tudo. Casamento inválido (c. 1108).
- O assistente avançado deturpou a fórmula do casamento. Casamento nulo.
- O padre e o pastor concelebraram. Quem pediu e recebeu o consentimento foi o pastor
sem dispensa do Bispo. Casamento inválido.

NB: Quando o Bispo dá alguma dispensa ou o pároco dá alguma autorização, deve ser
anotado no Processo matrimonial para evitar que o Tribunal incorra em grave erro.

VALIDAÇÃO DE UM CASAMENTO NULO:

Se alguém descobrir que seu casamento foi inválido, não se desespere.


Mas se já estiver separado, peça a declaração de nulidade do seu casamento.
Se quiser continuar casado, há várias maneiras de validar o seu casamento:
a-) Se faltou consentimento ou se o consentimento foi viciado e só o cônjuge marcar dia e
hora, fazer oração e renovar o consentimento sozinho, em particular, dizendo mais ou
menos isto: NN. eu te recebo por meu marido (esposa) para sempre.
Se ambos os cônjuges sabem, eles marcam dia, hora, juntos fazem uma oração, se dão as
mãos e dizem um ao outro: NN. eu te recebo por esposa (marido) para sempre.
b-) Se a falta de consentimento foi pública, isto é, se as pessoas sabem, é preciso renovar o
consentimento de forma pública, com a presença do padre e de duas testemunhas. Pode
ser renovado na Igreja, na sacristia, na casa paroquial ou até em casa.
c-) Se houve algum impedimento, é preciso obter a dispensa do bispo ou do papa, e depois
renovar o consentimento de forma pública como na letra b-) acima.
Para renovar o consentimento, não basta um simples desejo abstrato e confuso, mas é
preciso fazer um verdadeiro ato humano¸ consciente e explícito. Por isso é bom marcar
local, dia e hora, fazer uma oração e renovar o consentimento.
d-) Se houve defeito de forma, o casamento deve ser refeito na forma canônica.

SANAÇÃO NA RAIZ:

A Igreja é mãe bondosa, carinhosa e misericordiosa. Para validar um casamento ela pode
conceder uma graça espetacular que apaga todos os impedimentos e até os defeitos de
forma, embora nem a Igreja possa dispensar do consentimento.
A sanação só vale se as partes ainda querem continuar casadas.
A sanação na raiz está regulamentada nos cc. 1161 a 1165. Ela retrocede no tempo, e

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Nulidade Matrimonial
Como obter a declaração de nulidade
de um matrimônio aparente.

torna o matrimônio válido desde o início. Até parece um verdadeiro milagre.


Quem pode conceder a sanação é só o Bispo ou o papa.
A sanação na raiz só vale se as partes ainda querem perseverar na vida conjugal. Se elas
pretendem se separar, a sanação não vale – cc. 1161 a 1163.
Por causa grave, a sanação pode ser dada até sem o conhecimento de uma parte. Mas isto
só se houver motivo muito grave, senão é traição e desonestidade – c. 1164.
Concedida a sanação, deve ser feita anotação nos devidos livros de batismo e de
casamentos para evitar graves erros de juízes dos Tribunais - c. 1123.
Para não provocar escândalo nos fiéis, é ótimo comunicar a graça ao povo.

Como fazer para obter a graça da sanação? – Basta que um dos cônjuges, ou ambos,
façam o pedido por escrito ao Bispo, dando o nome e a qualificação do casal.
O pároco também pode fazer esse pedido, ou deve ajudar a quem pede.
Precisa juntar cópia da Certidão de Batismo e de Casamento de ambos para possibilitar as
anotações prescritas pelo Código de Direito Canônico, c. 1123.
Desde o momento que o Bispo assina o Decreto da Sanação na raiz, o casal já está
legitimamente casado, com efeito retroativo, isto é, desde o início da sua união.
Às vezes houve só casamento civil. A sanação será dada desde aquele momento.
Quem desejar outras informações é só pedir ao Tribunal Eclesiástico.

PRINCIPAIS PASSOS DE UM PROCESSO DE NULIDADE:

A palavra 'processo' significa passo a passo para frente rumo à sentença.


Os passos de um processo podem ser comparados aos degraus de uma escada de madeira
encostada na casa para subir até o telhado.
Quem quiser pular degraus pode despencar, quebrar-se e não chegar ao telhado.
Quando um cônjuge já se separou e vê que seu casamento não tem mais remédio e
suspeita que foi nulo, pode dar início ao Processo. Eis os passos de um processo:

1-) Informações - O interessado procura pessoalmente o Tribunal Eclesiástico, expõe seu


caso e pede mais informações, orientações e ajuda.
2-) Libelo - Se há bons motivos de nulidade faz seu Pedido, que se chama 'Libelo'.
Escreve o Libelo de maneira simples, como uma carta, seguindo as orientações do
Tribunal e o modelo da página 23 deste livro. Sem boas orientações é fácil omitir algo
importante e escrever inutilidades, e então o juiz mandará refazer ou completar o Libelo.
3-) Documentos - É preciso juntar os documentos pedidos: Batistério de ambos e
Certidões de casamento religioso e civil com averbação do divórcio. Se não casou no
civil, deve fazer uma declaração, numa folha à parte, dizendo que não casou no civil.
4-) Aceitação - Quando o Libelo e os documentos estiverem prontos, leve-os ao juiz que
fará o Decreto de Aceitação da Causa. Com esse Decreto o Processo inicia de fato.

25
Pe. Antônio Mattiuz

Depois seguirá seu caminho normal, passo a passo, até à sentença final.
5-) Comunicação – De seguida o juiz manda aviso à outra parte, comunicando-lhe o fato,
informando-a do que a parte demandante pediu, e dando-lhe um prazo para se manifestar
se concorda ou não com o que foi dito. Se não concorda, ele dará a sua versão dos fatos.
Quem discorda não pode dizer só isto: “É tudo mentira. Eu não concordo”. Ela precisa
dizer quais foram as reais causas do fracasso daquele casamento.
6-) Limites – Considerando que não se pode dar tiros em todas as direções, o juiz fixa um
limite de causas de nulidade a serem discutidas. Por exemplo: se o casamento foi nulo
por coação sofrida pelo demandante. A outra parte têm um prazo para se manifestar.
Depois disto, o Processo anda só nesta direção.
7-) Questionários – Agora o juiz faz três questionários para interrogar a Parte
demandante, a Parte demandada e as testemunhas a fim de descobrir a verdade dos fatos.
8-) Citação para depor – O juiz manda citação, convidando as partes e suas testemunhas a
irem ao Tribunal para dizer o que sabem. É preciso ser pontual. O Tribunal de Belém
deixa à cargo de quem arrolou para trazer suas testemunhas.
9-) Citação por AR – Quando uma parte não atende à citação do juiz que chama, às vezes é
chamada por telefone. Se não vier, o juiz manda nova citação por AR. Se a parte não
comparecer, será declarada ausente, e o Processo seguirá até à sentença final sem a sua
participação. Se for o Autor a não comparecer, o Processo será Arquivado.
10-) Testemunhas – O CDC não estabelece quantas devem ser as testemunhas. O
Tribunal de Belém exige pelo menos três. Parentes e familiares sérios e honestos que
conhecem bem os fatos podem ser testemunhas. Quem for desonesto ou mentiroso não
deve ser arrolado. Antes do interrogatório, o juiz exige juramento diante de Deus de dizer
a verdade. Jurar falso é pecado grave. Os juízes têm preparação para descobrir mentiras.
Quem arrola testemunhas é a parte demandante e demandada. O próprio juiz pode
convocar testemunhas sempre que achar oportuno.
Quem arrola, é bom informar as testemunhas de que se trata. Já chegaram ao Tribunal
pessoas que nem sabiam para que vieram e estavam por fora de tudo.
11-) Provas – O Tribunal aceita todo tipo de provas da nulidade: testemunhas, cartas,
documentos, fotografias, vídeos, filmagens, gravações, etc.
12-) Conclusão dos Autos – Quando o juiz tiver colhido todas as provas, fechará o
processo e o enviará ao Defensor do Vínculo. Se ele acha que está suficientemente
instruído, dá seu parecer sobre a nulidade ou não do matrimônio. As Partes também
podem dar suas razões a favor ou contra a nulidade.
13-) Sigilo - Para o bem de todos, nem as partes e nem seus advogados têm direito de
levar o Processo fora do Tribunal, nem fazer cópia de nada, nem fotografando e nem com
celular. Só podem consultar o Processo no Tribunal. Se o juiz achar que a consulta a
depoimentos pode causar confusões, danos ou brigas, pode decretar o sigilo processual e
impedir até vistas do Processo. Isto às vezes acontece.
14-) Conclusão da Causa – Concluído o tempo dado pelo juiz para as Partes e o Defensor

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Nulidade Matrimonial
Como obter a declaração de nulidade
de um matrimônio aparente.

do Vínculo darem suas razões, a causa se encerra e o Processo é entregue a três (3) juízes
para eles estudarem, escrevem seu parecer e prepararem o julgamento..
15-) Os juízes – Para cada Processo são nomeados três (3) juízes.
Os juízes são pessoas cultas, sérias e honestas, geralmente mestres ou doutores em
Direito Canônico, aprovadas pelo Bispo e por Roma para julgarem em nome da Igreja.
16-) 1ª e 2ª Instância – Diz-se 1ª Instância o Tribunal onde o processo inicia e é proferido
o 1° julgamento. Se um matrimônio for declarado nulo na 1ª Instância, há recurso
automático para o Tribunal da 2ª Instância.
Mas quando a 1ª Instância julgou que não há nulidade, o Processo pára. Só irá para a 2ª
Instância se a Parte interessada apelar. Senão, o Processo acaba e é arquivado.
No Tribunal da 2ª Instância, o Processo passa novamente pelo exame de um Defensor do
Vínculo e de três juízes que confirmam ou não a sentença da 1ª Instância, ou buscam
novas provas ou mesmo o devolvem para colher mais provas.
Se os juízes confirmam a sentença de 1ª Instância, o Processo acabou. Não há mais nada
a fazer, exceto se aparecerem novas e graves provas. Só o Tribunal julgará se existem as
condições requeridas para recorrer ao Tribunal da Sagrada Rota em Roma.
Se houver recurso a Roma, quem recorre deve arcar com todas as despesas.
17-) Comunicação da sentença – Proferida a sentença de 1ª Instância, o juiz presidente
manda comunicar às partes, e lhes dá 15 dias para se manifestarem. Convida-as também
a completar o último pagamento das custas, caso ainda não o tenham feito.
Transcorridos os 15 dias, o juiz presidente manda o Processo para o Tribunal de 2ª
Instância (de Apelação) para um novo julgamento.
18-) Sentença definitiva – O Tribunal de 2ª Instância se reúne e dá a sua sentença. Se ela
confirmar a sentença da 1ª Instância, torna-se definitiva. Se confirmar a nulidade
matrimonial, os interessados são considerados solteiros, e se quiserem, podem contrair
um casamento verdadeiro na Igreja, pois o 1° foi apenas aparente.
Se a sentença da 2ª Instância for contrária à da 1ª Instância, a parte interessada pode
recorrer para o Supremo Tribunal da Rota Romana em Roma (3ª Instância).
Se, porém, as duas sentenças confirmam a nulidade, o Processo acabou.
19-) Duração do Processo – Quanto tempo demora um processo?
O CDC diz que um Processo não pode durar mais que um ano e meio, sendo um ano na 1ª
Instância e meio ano na 2ª Instância. Em Belém, os Processos duram meio ano desde o
início até o fim. Às vezes é impossível pelas dificuldades de colher provas, ouvir partes e
testemunhas. Quando tudo corre normal, em seis (6) meses um processo começa, é
julgado na 1ª e também na 2ª Instância.
Às vezes um processo pára por falta de pagamento das custas Processuais.
20-) Quanto se paga de Custas? – Os dois Tribunais Eclesiásticos vivem das custas
processuais pagas pelos interessados. Em cada processo trabalham dez (10) pessoas
especializadas que devem ser pagas. Além disto há as despesas de expediente.
Esses profissionais ganham apenas uma só migalha, mas precisam receber.

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Pe. Antônio Mattiuz

Cada processo, em Belém, custa ao Tribunal em torno de dois salário mínimos.


Os dois Tribunais de Belém cobram juntos um salário e meio (1,50), ou dois (2) ou três (3)
salários mínimos por processo conforme as possibilidades de casa pessoa.
Alguns pagam um pouco mais para compensar os pobres que pagam menos.
Sem estas custas os Tribunais desaparecem.
Quando alguém é bem pobre, paga o que pode. Mas a sua Paróquia paga um (1) salário
mínimo para ajudar na sobrevivência do Tribunal.
Quem paga as custas? Na justiça civil quem perde a ação paga tudo. Na justiça
eclesiástica, o Tribunal cobra do demandante. Mas, a Igreja diz que os dois deveriam
dividir as custas processuais, conforme a possibilidade e o interesse de cada um.
21-) Registro - Proferida a sentença definitiva da 2ª Instância, o Tribunal manda as
Paróquias e as Dioceses de Batismo e de Casamento anotarem que este casamento foi
declarado nulo. Assim, quando for emitida uma certidão, terá também esta anotação.
22-) Documento comprobatório – O Tribunal manda às Partes cópia do Decreto de
Publicação e cópia da sentença de Apelação, dizendo que, tanto um quanto outro, são
documentos válidos e suficientes para provar a nulidade deste casamento, e que os dois
são solteiros e, se quiserem, estão livres para contrair novo casamento na Igreja.
Esses documentos são emitidos pelo Tribunal em nome da Igreja católica. São
documentos válidos e de imensa importância, que devem ser guardados com carinho. O
Tribunal só entrega esses documentos após serem pagas todas as custas processuais.
23-) Advogados e procuradores - Eu preciso contratar um advogado? Só se você quiser,
mas não precisa – c. 1481. Um simples advogado da justiça civil não serve porque não
tem a devida capacitação e habilitação para agir nos Tribunais da Igreja.
Para advogar no Canônico, o advogado precisa ser doutor, ou mestre ou bacharel em
Direito Canônico, ter honestidade comprovada, ser nomeado pelo bispo moderador e sua
nomeação ser homologada por Roma.
Para quem reside longe do Tribunal, é melhor nomear um procurador de sua confiança
para executar algumas tarefas, como estas: providenciar por documentos, trazer as
testemunhar arroladas, fazer pagamentos de custas, e outras atividades semelhantes.

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Nulidade Matrimonial
Como obter a declaração de nulidade
de um matrimônio aparente.

O procurador não precisa de nenhuma habilitação em Direito Canônico.

Veja um MODELO DE LIBELO para servir de roteiro.

DD. Presidente do Tribunal Eclesiástico de Belém, PA.

Eu, Marcos Pena, filho de........ e de........, nascido dia ....../....../19..... em Breves, com 2°
grau, comerciante, residente em Belém, rua................, n°....., Bairro..................... CEP
......... Telefone............., católico, batizado na Paróquia .............., Diocese de.............
casado no religioso dia..../...../....... na Paróquia ................... Diocese de.....................
com
Maria Souza, filha de....... e de ....... nascida dia ....../....../19...... em Belém, com 2° grau,
costureira, residente em Belém, rua..........., n°........, Bairro.............. CEP .........
Telefone..............., católica, batizada na Paróquia ................, Diocese
de............................

Eu conheci Maria Souza numa festa em Marituba, PA.


Namoramos dois anos. Nosso namoro foi conturbado, com brigas e ciúmes.
Seus pais não queriam que ela namorasse por ser muito nova. Mesmo assim, nós nos
encontrávamos às escondidas, e ela me dizia que tinha muitos problemas de
relacionamento em casa com seus pais, e por isso queria casar-se.
Conhecendo-a melhor, eu buscava uma ocasião propícia para acabar com o namoro, pois
ela não era o tipo de mulher que eu queria para ela ser minha esposa.
Infelizmente, após 5 meses de namoro, mantivemos relação e ela engravidou.
Eu não queria casar-me, porque não via nela as qualidades para ser minha esposa, pois ela
era muito nervosa, ciumenta e irresponsável.
Poucos dias depois, o pai dela veio me procurar para combinar o casamento. Eu respondi
que assumiria a criança, mas que não iria casar com Maria. Ele, então, me ofendeu,
humilhou e me ameaçou dizendo que se eu não casasse iria ver o que era bom.
Eu fiquei com muito medo porque ele era bravo e tinha fama de ser violento.
Para livrar-me deste problema eu tive que aceitar o casamento.
As cerimônias foram frias, pois eu não me sentia satisfeito em casar com Maria.
Depois de casados fomos morar numa pequena casa alugada.
Desde o início do casamento nós não fomos felizes. Nós nos desentendíamos e
discutíamos por qualquer motivo. Por causa disto eu comecei a beber e a passar noites
fora de casa com amigos. Com isso nossos problemas foram se agravando cada vez mais
até nos separarmos. Vivemos juntos por dois anos. Foi um tempo péssimo.
Hoje eu pago pensão para sustentar meu filho. Ela trabalha num supermercado.
Há três anos vivo com outra mulher com quem tenho uma filha. Maria vive só.
Hoje peço à Igreja a nulidade do meu casamento porque casei coagido.

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Pe. Antônio Mattiuz

Belém, 20 de outubro de 2014.


Marcos Pena.
Para provar o que eu disse, apresento a lista dessas 3 testemunhas.
1-) Nome e endereço completo, inclusive CEP e telefone.
2-) Nome e endereço completo, inclusive CEP e telefone.
3-) Nome e endereço completo, inclusive CEP e telefone.
NB: Familiares e parentes que conhecem bem os fatos alegados podem ser testemunhas.

DOCUMENTOS NECESSSÁRIOS:

É preciso juntar ao Pedido esses documentos:


1-) Boa fotocópia da Certidão de Batismo das Partes demandante e demandada.
2-) Boa fotocópia da Certidão de casamento religioso (Buscar na Paróquia onde
casaram).
3-) Boa fotocópia da Certidão de casamento civil com averbação do divórcio.
* Se não casaram no civil, fazer uma declaração dizendo que não casaram.
* Entregar tudo pessoalmente ao Presidente do Tribunal nesse endereço:
* Tribunal - Av. Gov. José Malcher,915 –B. Nazaré - Belém, PA.
* Para agendar ou para maiores informações: tel e fax (91) 3215.7001 ou 7002.

COMO FAZER O LIBELO?

Libelo é o pedido para iniciar um Processo de Nulidade Matrimonial.


1- No Libelo devem constar todas as informações e dados conforme modelo acima.
2- O Demandante conta a história dizendo a verdade, sem engrossar e nem distorcer os
fatos, tendo o cuidando de não ofender a outra parte.
3- A verdade, embora dolorosa, deve ser dita para o juiz aceitar ou rejeitar a causa.
4- O libelo deve ser escrito ao computador ou à máquina, conforme modelo acima.
5- Depois de pronto, entrega-lo pessoalmente ao Presidente do Tribunal para o seu exame
e aceitação. Nunca se manda pelo correio e nem por outra pessoa.
6- Antes de entrega-lo, veja e cumpra o que está na 1ª observação abaixo. Depois agende
dia e hora com o juiz Presidente. Ele receberá e dará início ao Processo.
7- O libelo não pode ser muito longo. Duas ou três páginas são suficientes.
8- Deixe uma margem de uns 3 centímetros à esquerda para poder grampeá-lo.
9- É bom seguir o modelo acima para não omitir nenhum dado. Se faltarem dados, o juiz
devolverá o Libelo e você terá que completa-lo antes de ser aceito.

6 OBSERVAÇÕES IMPORTANTES:

1ª- Quando o Libelo estiver pronto, queira apresenta-lo ao Diácono Manoel Luiz Feio

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Nulidade Matrimonial
Como obter a declaração de nulidade
de um matrimônio aparente.

para ele dizer se tudo está bem. Só depois o entregará ao Presidente do Tribunal.
2ª- Aproveite para combinar com o tesoureiro do Tribunal, Diác. Feio, o valor das custas
processuais e as parcelas do pagamento.
3ª- A 1ª parcela só deverá ser paga no dia do Decreto de Aceitação da causa. As outras
parcelas sejam pagas conforme foi combinado com o tesoureiro.
4ª- O matrimônio que nasce válido, é válido para sempre e só a morte o pode dissolver – c.
1141. Mas casamento que nasce nulo, a Igreja pode declará-lo inválido através de seus
Tribunais por meio de diligente processo.

INTERROGATÓRIOS PELO JUIZ AUDITOR (c. 1428):

Auditor é o juiz que ouve e interroga as partes, as testemunhas e recolhe as provas.


Interrogar as partes é uma tarefa de enorme importância. Por isso o Auditor deve ser
muito competente, bom conhecedor do direito, da doutrina e da jurisprudência.
As perguntas são feitas com antecedência, mas o Auditor pode fazer tantas outras
perguntas quantas achar bom, pois o interrogatório é para descobrir a verdade.
Quando o juiz Auditor cita alguém para depor, a pessoa citada deve comparecer. Se não
puder comparecer, deverá telefonar, avisando e combinando outra data.
Se a parte demandada não comparecer, será declarada ausente do processo.
Se a parte demandante não comparecer, o processo será arquivado.
Se uma testemunha não puder vir ou se não compareceu, quem a arrolou deverá substituí-
la por outra para não frear o andamento do processo.
A pessoa citada deve ser pontual. Se atrasar, pode não ser ouvido naquele dia em vista
dos outros compromissos já assumidos pelo juiz Auditor.
As Partes demandante e demandada são ouvidas antes de suas testemunhas, exceto por
causas justas ou graves, quando poderão ser ouvidas a qualquer momento.
Só a verdade seja dita. Já que existem pessoas mentirosas, o juiz exige juramento perante
Deus de dizer a verdade. Quem mente peca, e prestará contas a Deus.
Todos precisam apresentar documento de identidade com fotografia.
A testemunha precisa ter pelo menos 14 anos de idade. Mas o juiz Auditor, se achar bom,
poderá interrogar também crianças.
Nem sempre o depoente estava presente quando aconteceram os fatos. Mas se ele foi
informado em tempo insuspeito, (antes do início do processo), pode testemunhar. Se,
porém, foi informado, 'em tempo suspeito', recentemente, seu testemunho não vale.
Se alguém hoje é alcoólatra ou dependente de drogas, não anula o casamento. Mas se
esses vícios já existiam antes do casamento, embora ainda pequenos, causam a nulidade
do matrimônio, pois qualquer mudinha tende a tornar-se árvore um dia.
Que quantidade de álcool ou de droga precisa ingerir para anular um matrimônio? - A
quantidade necessária para alterar o seu comportamento e fazer besteiras.
A testemunha precisa conhecer bem os fatos próximos ao casamento: antes e logo depois,

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Pe. Antônio Mattiuz

pois só eles revelam se o casamento foi válido ou nulo. A testemunha é quase inútil se
não conheceu a vida do casal na época próxima ao casamento.
As 'opiniões' também não resolvem, pois podem estar certas ou erradas. Por isso, elas não
provam nada. Os juízes precisam de fatos e não de opiniões. É inútil dizer: “Eu acho, eu
penso...” O bom testemunho relata fatos e não opiniões. Melhor é dizer: “Eu sei, foi
assim e assim. Aconteceu isto e aquilo. Eu vi, eu escutei, etc.”.
O depoente deve responder logo e não ficar pensando o que dizer. Se souber, responde;
se não souber, diz que não sabe. Não saber não é nenhum mal. O mal é mentir.
Cada depoente é interrogado sozinho, em particular, e não junto com outros.
Na audiência está presente o juiz. Às vezes o Defensor do Vínculo e o Notário.
É pecado e grave injustiça a parte demandada comparecer só para prejudicar o Autor por
causa de ódio e vingança contra quem antes já se amou. Cristão jamais pode ser falso e
vingativo.

CÂMARAS JUDICIAIS AUXILIARES (c. 1423):

Há pessoas que precisam de ajuda da Igreja para resolver o problema de seu casamento
nulo, mas moram em dioceses ou prelazias muito distantes. Para chegar ao Tribunal
precisam viajar longe e gastar muito dinheiro, que às vezes não têm.
Para socorrer tais pessoas, toda Diocese deveria ter a sua Câmara judicial auxiliar.
É simples e já existem muitas no Brasil.
A câmara pode ser formada por duas pessoas apenas: um Auditor e um Notário.
Se não houver Notário, o Auditor pode nomear um para cada ato ou processo.
A palavra 'Auditor' vem do latim e significa 'aquele que ouve'.
O Auditor ouve a pessoa que procura a Igreja para resolver o problema do seu
matrimônio, que suspeita ter sido nulo. O Auditor orienta a pessoa para ler e estudar esse
texto para fazer o Libelo, e dá outras informações úteis.
Quando o Libelo estiver pronto, inclusive com os documentos exigidos, o Auditor envia
para o Tribunal pelo correio, de preferência por AR ou por sedex.
Se tiver bom fundamento, o juiz faz o Decreto de Aceitação da causa, sugere os limites da
controvérsia, faz os questionários e os envia ao Auditor da Câmara para ele comunicar o
feito às Partes e pedir-lhes que, se quiserem, façam suas reclamações.
Depois o Auditor cita as Partes e testemunhas para interrogá-las e ouvi-las.
Após o Auditor ter ouvido as Partes e as testemunhas, envia tudo ao Tribunal onde
seguirá seu Rito normal, até à sentença de 1ª e de 2ª Instâncias.
Fica na responsabilidade da Câmara combinar e cobrar as Custas processuais.

O que precisa para alguém ser Auditor? – Precisa ser pessoa honesta, generosa e disposta
a trabalhar, saber escrever bem e entender as pessoas, e ser nomeada pelo Bispo.
Precisa conhecer muito bem este texto e a técnica de interrogar.

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Nulidade Matrimonial
Como obter a declaração de nulidade
de um matrimônio aparente.

Não precisa ter nenhum título de Direito Canônico.


O Notário também precisa ser honesto e disposto a ajudar o Auditor, ser nomeado
pelo Bispo ou mesmo pelo Auditor.
Quem escreve as respostas é o Auditor ou o Notário: quem escreve melhor.
É ótimo que haja Auditores e Câmaras Auxiliares em todas as Dioceses.
O Tribunal de Belém se dispõe a ajudar e a capacitar os Auditores. É só pedir.

Você deseja fazer um ato de caridade? Divulgue este livrinho.


Pe. Antonio Mattiuz
Texto revisto em 15.08.2014.

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