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Universidade Federal Fluminense – Faculdade de Educação / SEE

Curso: Licenciatura em História – PPE1 / 2º sem 2013


Prof. Dr. Everardo Paiva de Andrade
SSE00230 – turma H2 – 3ª/5ªf (18/20h) + Sab (14/16h)

Texto 6: RELEITURA DE MARC BLOCH

Everardo Paiva de Andrade

Numa obra metodológica que deixara inacabada ao morrer, fuzilado que fora pelos nazistas na Segunda
Guerra Mundial, o historiador francês Marc Bloch dirigia-se expressamente a duas audiências especiais. A
primeira, um menino filho de historiador que pedia: “Papai, me explica então para que serve a história”
(BLOCH, 2001: 411). A segunda, o soldado que assistia atônito à ocupação de Paris pelos alemães, em junho de
1940, perguntando-se: “É possível acreditar que a história nos tenha enganado?” (idem: 43). Grande
refundador da ciência histórica, Bloch não poderia permitir-se, simplesmente, concordar, por um lado, com
Langlois e Seignobos, descartando por ociosidade o problema colocado pelo menino; tampouco deveria decidir-
se pela irremediável condenação da história, dada a sua incapacidade de servir utilitariamente à ação. Ambos
mereciam uma resposta e o historiador pôs-se a escreve-la.
Mas sua tarefa não era simples. Estava convencido de que ambas as questões remetiam ao problema da
legitimidade da história, portanto ao imperativo de “saber falar, no mesmo tom, aos doutos e aos escolares”
(idem: 41). Sabia que era preciso, em sua resposta, dirigir-se a todos, “mas simplicidade tão apurada é
privilégio de alguns raros eleitos” (idem: 41). Ciente de que era preciso escrever não “unicamente, nem
tampouco sobretudo, para o uso interno da oficina” (idem: 49), põe-se a refletir sobre a história e o ofício de
historiador. A utilidade pragmática, aqui, não pode ser senão secundária em relação à legitimidade intelectual,
para a qual é preciso compreender primeiro para agir sensatamente depois, estabelecendo relações explicativas
entre os fenômenos e explicitando progressivamente sua própria intelegibilidade.
As lições fundamentais de Bloch ajudaram a formar, desde então, mais de uma geração de historiadores,
convencidos da necessidade de superar o paradigma constituído a partir das ciências da natureza, de inspiração
positivista. Entretanto, a despeito de todo reconhecimento e de tantas ressalvas, parece não ter sido possível
contemplar integralmente o projeto ecumênico de, no mesmo tom, falar para todos: o historiador permanece
grandioso, de pé no umbral da oficina, dirigindo-se a esta terceira audiência especial – seus pares –, mesmo que
para lembrá-la incessantemente de um certo compromisso com o projeto irrealizado.
Em outra parte, ainda, Bloch lembrará que a história “não é apenas uma ciência em marcha. É também
uma ciência na infância” (idem: 47). Até o final daquele século, a história irá se distanciar progressivamente
dessa infância, enfrentando, não obstante, dolorosas crises de crescimento e renovando, algumas vezes, seus
problemas, suas abordagens e seus objetos. Nessa trajetória, no interior do discurso histórico e das exigências de
sua produção, rigorosamente instituída pela comunidade profissional dos historiadores, aprimora-se cada vez
mais esta palavra dirigida aos doutos 2. Do mesmo modo, as demandas específicas daquelas outras duas
audiências – os escolares e, de uma maneira geral, em termos mais adequados aos tempos que correm, o público
consumidor de mídia – complexificam-se e exigem, progressivamente, um produto em uma linguagem mais
compatível com suas respectivas identidades.
Interessa lato sensu a este trabalho essa especificidade do produto e da linguagem histórica ou
historiográfica dirigida aos escolares. E, ainda mais, a especificidade também dos sujeitos socialmente
encarregados da orquestração de ambos em condições especialmente constituídas para tal, isto é, em condições
escolares. Trata-se, antecipando a surpresa que os nomes porventura ainda possam guardar, do interesse
particular pelo professor de história e pela história ensinada. Mas, ainda mais particularmente, o que de fato
interessa no detalhe é o processo de formação desse professor de história, assim como os mecanismos e os meios
de construção, de aquisição e de mobilização de seus saberes.

1
BLOCH, Marc. Apologia da história ou o ofício de historiador. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2001. 160 p.
2
Sobre o assunto, ver a coleção “História” (novos problemas, novas abordagens e novos objetos), organizada por
J. Le Goff e P. Nora, publicada no Brasil em 3 volumes pela Editora Francisco Alves, em meados dos anos 70.
Ver também BOUTIER, Jean & JULIA, Dominique (Orgs.). Passados recompostos: campos e canteiros da
história. Rio de Janeiro, EdUFRJ / EdFGV, 1998.

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